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Apocalypsing: uma nova tendência da decadência da vida amorosa moderna

Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista do UOL

11/01/2021 04h00

O ano mal começou e já catalogaram uma nova tendência que aponta para uma possível decadência de nossa vida amorosa: O apocalypsing. E se você, assim como eu, tava no clima do "agora vai! ano novo, amor novo"... Bem-vinda ao time das pessoas mais suscetíveis a cair nessa roubada.

O Apocalipsing foi um termo catalogado pelo site americano de relacionamentos Plenty of Fish, e significa tratar o próximo relacionamento como se fosse o último. Exatamente a tal sensação de "agora vai!" que faz a gente ter a certeza de que aquele cara vai ser "O CARA" porque afinal de contas rolou uma super sintonia nas duas horas que você ficou na casa dele naquele primeiro date lambuzado de álcool gel.

O beijo encaixou, o papo fluiu e ele também ama o álbum Bicho, do Caetano, como você. De repente você já se pega lavando a louça cantarolando "Para desentristecer, leãozinho, o meu coração tão só. Basta eu encontrar você no caminho..." enquanto se imagina mantendo o isolamento social num sítio bucólico em São Francisco Xavier vendo o pôr-do-sol com seu novo amor.

Subitamente o presente e o futuro não parecem tão aterrorizantes, mesmo ainda sem a certeza de quando a vacina virá. Isso porque, na sua cabeça, você penou em 2020, mas acabou mergulhando no autoconhecimento e agora está pronta pra uma conexão mais inteira e verdadeira. Esse cara é diferente dos outros, a conexão é especial, todos os dias de meditação da abundância e os rituais de ano novo já estão surtindo efeito. Pronto: Agora vai!

Sou super do time da meditação da abundância e também fiz meus rituais pra pedir um 2021 com mais amor, mas sinto ser a estraga prazeres e dizer: talvez esse seu novo possível mozão não seja exatamente um mozão. E essa paixão seja reflexo de um efeito colateral de nossa fome de pele.

Correndo atrás do prejuízo

Não sei como foi o 2020 amoroso de vocês, mas eu segurei a onda no isolamento durante looongos meses e quando fui furar para encontrar um crush, dei com os burros n'água. Não bastassem os inúmeros caras que estavam de papo comigo e foram comprar álcool gel e nunca mais voltaram (o famoso ghosting) ou poucos caras que encontrei ao vivo não valeram o risco de pegar covid no botão do elevador da casa deles.

Entro em 2021 já querendo que o primeiro encontro desse ciclo novo compense toda a lama amorosa do ano anterior. Projeção e expectativas explodindo? Temos!

Isso faz com que a gente já vá para o próximo date querendo viver uma espécie de efeito placebo do amor. Qualquer mínima mágica parece melhor do que a secura ou os trastes passados e a gente se apega a essa aura mística das mudanças de ano novo, pra se iludir achando que as conexões amorosas também vão mudar.

A gente achando que é amor... mas é ocitocina.

Segundo a psicóloga americana Danielle Forshee "nós precisamos de contato humano e toque físico para nutrir nossas necessidades emocionais". Em tempos de pandemia, meus toques ficaram restritos às minhas próprias mãos, que tentaram me acolher em longos banhos com óleos perfumados ou eternos alongamentos da louca da Yoga que despertou em mim. Ok, autocuidado é uma delícia, mas não é a mesma coisa que um bom carinho de um coleguinha né?

Segundo a psicóloga "Quando trocamos toques por 15 segundos ou mais - seja um abraço, um beijo ou um simples carinho nas mãos de um novo paquera, isso libera ocitocina, um hormônio que faz com que a gente se sinta conectado ao outro, o que muitas vezes é confundido com sentimentos amorosos". Alguns especialistas descrevem os efeitos do hormônio como semelhantes a efeitos de drogas. Assim, chapados desse prazer momentâneo, tendemos a querer repetir a sensação e, por isso, já ansiamos o segundo e terceiro date o mais rápido possível. Ou seja, a gente achando que as borboletas no estômago finalmente estavam batendo novamente e na verdade eram só nossos hormônios em ebulição (TBT da adolescência rs?).

A gente confunde interesses em comum com matches de alma

E pra complicar ainda mais o contexto e trazer uma camada romântica a esse nosso instinto animal, acabamos amplificando a sensação de afinidade que temos com recém ex-estranhos.

Acho que aqui rola um misto de tédio e idealização: Por um lado, como diria Cazuza "o nosso amor a gente inventa pra se distrair". É como se nosso inconsciente estivesse dizendo "Querida, não tem nada pra fazer? Melhor me apaixonar. Ocupa o tempo, é gostoso, dá um frio na barriga? Muito melhor do que ver o caos da política internacional...". E lá vamos nós nos jogarmos em paixões inventadas.

Por outro, a distância forçada pelo isolamento faz com que a gente possa construir o lance todo na nossa cabeça antes de concretizá-lo de fato. Entrevistamos a psicanalista Maria Homem ano passado e ela afirma "o amor só existe à distância, só na idealização ele é possível". Aí acontece o que? Você stalkeia o perfil do boy até 2013, puxa papos por áudio com assuntos que você já viu que ele curte e - PLIM! - surge a falsa sensação de que vocês têm tudo a ver.

A gente esquece que essa pessoa provavelmente também está querendo escapar da solidão e, se for minimamente sensível, vai conversar com você sobre pontos em comum. "Em épocas de crise buscamos mais afinidades para nos sentirmos pertencentes" defende Forshee.

Você está editando sua vida, o boy está editando a dele, e o que são gostos em comum de repente ganham ares de completude premonitória. Alerta vermelho! Só por que o boy também adora Caetano e já foi pra Caraíva não significa que vocês são exatamente almas gêmeas.

Como escapar desse apocalipse sentimental?

Tá bom, mas como evitar que nossa vida amorosa vá pra lama já nos primeiros ( e ansiosos) dates do ano. Trouxe duas dicas úteis que vão ajudar você (e eu mesma) a separar paixão, hormônios e carência.

1. Reforce seu sistema imune de afeto

"Quanto mais isolados socialmente estivermos, maior será a probabilidade de nos apegarmos a alguém", diz Forshee. Ou seja, pra não achar que qualquer boy que te responde uma semana seguida no app (eu sei que é raridade, amores) é um cara diferente e especial, aproveite o começo do ano para se reconectar com outras fontes de afeto.

A gente fez um vídeo ano passado sobre a importância de cultivarmos os vínculos com os amigos e familiares queridos e talvez possamos canalizar essa abstinência de carinho para essas pessoas que nos conhecem mais do que nossas 4 fotos do perfil do app de paquera. 2020 foi o ano de colocar a máscara de oxigênio em nós mesmos e eu pelo menos, não fui muito boa na manutenção dessas relações. Trago aqui minhas desculpas públicas e um convite para que a gente se reconecte com essa rede de afeto poderosa. Nem que seja por longas ligações telefônicas relembrando as épocas adolescentes.

2. Foco sim, projeção? Melhor não

Eu sou super do time romancinho e acho maravilhoso focarmos em uma história de cada vez. Foco agora é também questão sanitária, já que você evita se contaminar com uma pessoa e transmitir o vírus para outra. Mas a vontade de criar sua própria bolha de covid não pode virar uma armadilha pra transformar a alegria de ter tido um encontro gostoso na projeção do tal exílio na casinha de São Francisco Xavier.

No canal a gente diz que vale usar a lógica do A.A. dos dates: curte um encontro de cada vez. Se for para projetar, que seja o filme do final de semana e não o nome dos filhos de vocês. Conhecer a pessoa de verdade antes de pensar se as crianças vão estudar num colégio construtivista pode ser mais saudável. E se a história não for para frente. Foi só mais um date que não rolou. E não a perda do mozão da vida.

3. Tenha clara suas condições

Quando a gente está carente as chances de achar que qualquer pessoa pode ser "A" pessoa são altíssimas. Isso é um prato cheio pra gente fazer vista grossa pra posturas que não são tão legais, engolir desculpinhas e evitar atritos com medo de perder alguém (que você nem tem certeza se vale mesmo a pena assim).

É muito importante que a gente tenha clareza de quais valores e posturas são inegociáveis. Já que estamos nessa onda das listas do ano novo, vale fazer uma lista de características que você não abre mão num parceiro. É claro que não é pra escrever uma enciclopédia e construir um ideal inatingível. Mas definir seus padrões, especialmente em relação a como você gostaria de ser tratado, te ajuda a entrar e sair das histórias de forma mais consciente.

Esse é inclusive um dos pontos que a gente trabalha no nosso curso Desafio Chega de sofrência. 21 dias para mudar padrões e tomar as rédeas da vida amorosa. Vamos abrir uma turma nova agora em janeiro. Que tal aproveitar pra começar o ano mudando com a gente?

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