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Wokefishing: o "golpe do papinho" só pra conquistar cresce no isolamento

Mulher negra olhando o celular - iStock
Mulher negra olhando o celular Imagem: iStock
Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista de Universa

24/03/2021 04h00

Sim, estamos todos angustiados e mais assustados do que nunca. Encarar o triste número de 295 mil mortes por covid-19 no país e o crescente avanço da pandemia nos deixa paralisados. O coração aperta e não dá pra abraçar ninguém. Não dá pra pedir colo. Todos nós à flor da pele, temos que estabelecer contato com o outro com distanciamento, máscara e muito álcool gel. Não dá pra bobear. E somado a esse medo e a angústia bate também em muitos de nós solteiros a carência e à solidão.

Mergulhei muito no autoconhecimento durante o isolamento e, por ser solteira e estar sozinha em casa, tive o privilégio de poder encontrar os meus tempos. Mas confesso que de tempos em tempos bate a vontade de conhecer alguém legal. Agora, e talvez nos próximos meses, a única forma segura de conhecer alguém é via apps de paquera ou redes sociais. E pra manter esse match seguro, teremos que manter o flerte vivo via boas doses de papinho e alguns toques de webcam. Eu sei que dá preguiça.


Mas como se não bastasse a preguiça (e o ghosting), sinto informar que a vida paquerativa do solteiro tem agora um outro fator complicador: o Wokefishing ou golpe do papinho. O termo criado pela americana Serena Smith serve para descrever aqueles crushes que, no papinho, são super feministas, mente aberta, compreensivos, desconstruídos mas, na verdade, suas atitudes são diferentes do discurso do boy contemporâneo dos sonhos. Essa breve descrição já faz a gente pensar nos esquerdomachos, certo? Pois é... Mas além deles, tem muito cara bom de lábia e de stalking, que parece ser bem mais legal do que é.

Sabe aquele cara que parece o match perfeito: gosta dos mesmos restaurantes que você, dos mesmos filmes que você, das mesmas praias que você? Talvez não seja sinergia astral e sim uma boa dose de stalking. Pois é, esses "golpistas do papinho" são ótimos fuçadores de redes sociais.

Eles identificam suas paixões e interesses e, como quem não quer nada, jogam no papo que também amam fazer trilhas na Chapada (sendo que odeiam pousadinhas e são da turma do conforto e staff) ou que também adoram frequentar saraus de poesia.

No antigo normal, a farsa seria facilmente descoberta assim que ele passasse o Sarau inteiro mexendo no Instagram enquanto seus amigos performam textos sensíveis, que te deixam 100% comovida. O problema é que, com o isolamento, a gente perdeu o tira-teima da vida real e, assim, fica difícil sacar se é papinho ou se é verdade.

Pra aqueles que achavam falta de respeito usar foto de 2011 no app ou mentir a idade, sinto informar que o Wokefishing é muito pior. O drama desse golpe é que, em geral, esses caras ocultam não só o pouco apreço por dormir em barracas, mas também pontos importantes relacionados a valores e caráter.

Esses caras já sacaram que o modelo macho alfa anos 90 está com os dias contados e que não pega bem fazer piadas homofóbicas. No papinho, vão dizer que têm vários amigos gays mas se você levasse ele pra dançar provavelmente ele ia implicar com um cara na pista antes de você terminar seu primeiro gin tônica.

Sacanagem ou insegurança?

Segundo a coach de relacionamentos americana Damona Hoffman esses golpistas do papinho não mentem com o propósito de sacanear intencionalmente. Na cabeça deles são pequenas mentiras pra criar conexão, pra seduzir, pra agradar. Pessoas que odeiam conflitos e são mais inseguras têm grande tendência a se tornarem "wokefishers" sem nem perceber. "Não se trata de mentirosos compulsivos. Esse tipo de pessoa sente que está omitindo um ponto da vida em nome da construção da relação. Como se colocasse no mudo temas que podem gerar ruído nesse começo de flerte e, na cabeça deles, na hora em que o elo estiver mais forte, eles trazem as diferenças pra mesa" explica Damona.

A grande questão é: por quanto tempo a mentira se sustenta? E, além disso, como conseguir sacar que estamos sendo vítimas do tal papinho? Diferente do cara que usa a foto de 2012, que é facilmente desmascarado no primeiro date ao vivo ou na webcam, no caso dos wokefishers podemos levar anos até descobrir que o papinho não condiz com as atitudes. O conselho da americana para acelerar o processo de tira-teima, mesmo no digital, é engatar conversas profundas sobre temas que exploram valores importantes para você.

Em vez de ficar no papinho de "fez o que hoje?", "saudades", "pizza ou hamburguer" em eternas mensagens de 2 linhas ou trocas de áudio, crie momentos de ligações pra vocês baterem papos quase que filosóficos. Os temas não precisam ser explorados diretamente, numa espécie de debate de eleição. Dica: uma boa forma de trazer os assuntos para a mesa é conversar sobre o roteiro de um filme que aborda um tema que te toca ou uma notícia sobre uma pessoa pública que teve uma postura que você condena, por exemplo. Assim, ao falar de coisas, vocês falam de vocês.

Damona recomenda ainda o olho no olho, mesmo na versão virtual. Ela explica que "quando você está de câmera aberta, além do papo, é possível ler também a linguagem verbal do parceiro, o que dá mais pistas sobre como a pessoa se sente sobre o assunto e o quão engajada no tema ela está.

Ser honesta e jogar limpo, discordando do paquera algumas vezes, quando for o caso, também abre espaço para o outro entender que opiniões diferentes não necessariamente inviabilizam a relação. Assim , quanto mais transparentes formos, mais chances de incentivarmos uma espécie de corrente do bem da vulnerabilidade e franqueza.

E se por acaso você for a golpista do papinho e tiver usando o stalking pra caçar e forçar pontos de conexão com os crushes?. apenas, pare! Isso está ligado com a síndrome da impostora no amor e essa nossa sensação de que sermos nós mesmas não é o suficiente. Já escrevemos sobre isso aqui: confia no seu taco e lembra que somos todos imperfeitos.

Engatar uma relação já é difícil o suficiente sem as pessoas tentando enganar umas às outras sobre seus sistemas de crenças. O mundo já tem deixado a gente angustiado o suficiente? Se for pra abrir o app e tentar se conectar, bora fazer isso de verdade?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL