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Gilberto sofre afeminofobia no BBB, uma pressão que também afeta mulheres

Gilberto na área externa - Foto: Reprodução / Globoplay
Gilberto na área externa Imagem: Foto: Reprodução / Globoplay
Carol Tilkian e André Lage André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Colunista de Universa

15/02/2021 04h00

"Gilberto com aquela 'boberaiada' dele o tempo inteiro, forçando a barra, com gritinho, com dancinha, já está chato. Eu não consigo rir daquilo mais, acabou a graça para mim"

Por onde começar, não é mesmo? Essa frase dita por Rodolffo é um suprassumo de equívocos que traduzem o cerne da afeminofobia. O sertanejo acha que ser afeminado é ser palhaço, que o Gil está agindo dessa forma para divertir, entreter. No fundo ele acha que já está na hora do economista voltar a se comportar como "homem". (Lembrando que se ele não estivesse sendo vigiado por câmeras 24h, o teor dessa frase pudesse ser bem diferente). Mas gostaria de partir dela pra discutir a afeminofobia.

Apesar do termo parecer que é um preconceito que atinge as "afeminadas", ele é bem mais amplo que isso. A afeminofobia é o desprezo por aquelas pessoas que saem de seus papéis de gênero, independente da orientação sexual. É uma pressão que atinge homens gays, mas também homens héteros que não performam o papel do macho e também todas as mulheres que não performam a suposta "feminilidade".

Eu, por exemplo, tenho muitas amigas heterossexuais que não gostam de maquiagem e que são um zero à esquerda em moda e sempre me contam que há uma desconfiança que sejam lésbicas por isso. Inclusive nem toda pessoa LGBT sofre afeminofobia porque podem performar o gênero dentro da heteronormatividade.

E, apesar de não parecer tão relevante, a afeminofobia gera muita, mas muita violência.

Homem ou macho?

Vivemos dentro de uma sociedade heteronormativa onde somos ensinados a performar o gênero de uma certa maneira. Meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Somos doutrinados por todos à nossa volta para identificar que tipo de coisas são aceitáveis para homens e que coisas são esperadas para mulheres.

Desde muito cedo, todo homem é ensinado a rejeitar em si qualquer traço que possa ser visto como feminino, para justamente ser visto e avaliado como homem pelos demais homens. O maior medo de todo homem é ser visto como "mulherzinha". Aqui começa a misoginia, quando aprendemos a odiar o feminino dentro.

O documentário "A máscara em que você vive" mostra muito bem esse processo com os meninos na escola. Muitos deles abandonam seus talentos que são vistos como "femininos" como dança, pintura ou mesmo a música quando adolescentes, porque têm medo do que os demais vão pensar sobre eles.

Essa pressão oprime todos os homens (inclusive o cantor sertanejo) e que gera um custo enorme de saúde mental, porque existe uma vigilância constante e qualquer deslize pode levar a uma cassação da sua "carteirinha de homem".

Esses homens têm que ficar constantemente provando sua masculinidade performando esse macho alfa que inclui ser agressivo, ter muito desejo sexual e não dar gritinho nem fazer dancinha. E o resultado dessa "deseducação" nós vemos nas manchetes dos jornais, com o número absurdo de casos de abuso, violência contra a mulher e feminicídios. Isso sem entrar na seara da homofobia, que também surge daí: o Brasil é recordista mundial em mortes por homofobia.

Os homens héteros que fogem desse estereótipo sofrem afeminofobia constantemente. Eles ouvem comentários da família, dos amigos e até das mulheres que eles paqueram querendo sugerir que eles são gays. E aqui fica o meu puxão de orelha pra algumas mulheres: de que adianta lutar pelo feminismo e não combater a raiz do machismo, essa caixinha tão quadrada do gênero?

Tenha modos, menina!

E apesar desta pressão ficar mais clara quando olhamos pros homens (porque é a base do sistema que perpetua a masculinidade tóxica), a afeminofobia é muito presente e mais sutil entre as mulheres. Você já pensou o que faz uma mulher feminina?

Dentro dessa caixinha cabe:

  • a aparência: maquiagem , perfume, salto alto, cabelos longos, curvas e sempre um desejo de ser vista como bonita

  • os gestos e maneira de falar: sutil e fofa, nunca abrupta ou direta demais e sem ser muito espalhafatosa

  • as atitudes (ou a falta delas): não tomar iniciativa nas relações, agradar sempre,

  • os gostos: só pegar uma revista feminina pra ver a presença de culinária, decoração e astrologia por exemplo...

  • os objetivos de vida: é tido como natural que mulheres queiram ser mãe e que nunca coloquem a carreia à frente da família

Essa lista é infinita... Com certeza você que está lendo sabe quais características suas não são tão "femininas" e que talvez você se sinta mal por isso. Quem disse que existem características femininas? Quem inventou essa caixinha e a quem ela serve?

Essas características que estão na caixinha movimentam as engrenagens do capitalismo com a indústria da moda e da beleza e só deixam mulheres em um lugar de submissão e passividade. Será que não tá na hora de rever esses conceitos?

Precisamos urgentemente desconstruir essa prisão do gênero que faz tão mal a todos e gera tanta violência física e mental. Como diria Pepeu Gomes "Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino". Que a gente possa se reconciliar com o feminino e o masculino dentro de si, entender cada vez mais que gênero é uma performance e que não existe jeito certo nem errado de performar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL