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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como ficar internada por covid me fez rever o amor próprio e as relações

Fiquei 7 dias internada por Covid, essa foto é do dia que saí do hospital, grata pela minha saúde - arquivo pessoal
Fiquei 7 dias internada por Covid, essa foto é do dia que saí do hospital, grata pela minha saúde Imagem: arquivo pessoal
Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista de Universa

15/03/2021 04h00

Hoje faz pouco mais de uma semana que tive alta do hospital. Fiquei 7 dias internada por covid. Antes de tudo quero dizer o quanto sou grata e abençoada por ter acesso aos hospitais e médicos de ponta em um hospital privado. Sei que esse é um privilégio de poucos e agradeço diariamente por ter tido a oportunidade de me tratar e me curar com profissionais tão dedicados, amorosos e ferramentados com toda a estrutura e medicação necessárias que deveriam ser um direito de todos.

Esse é um texto sobre amor, sobre gratidão, sobre compaixão. Um relato de como esse período internada fez com que ficasse ainda mais evidente para mim a importância e o poder do amor dos outros e de nosso amor próprio. A cura tem um processo emocional gigante e esse turbilhão se transformou num convite para eu rever a forma como estava tratando o meu corpo, a minha vida e a minha rotina.

Antes de mergulhar nessa minha jornada de reconexão com a compaixão quero só dividir que durante a pandemia eu fui uma das pessoas mais xiitas sobre o isolamento entre minha roda de conhecidos. Morei 8 meses na minha casa na praia isolada e, ao voltar para São Paulo via apenas meu sócio e pouquíssimos amigos que também estavam isolados. Não ia a restaurantes, muito menos aglomerações. Me contaminei na semana do meu aniversário. Cheguei a cogitar me dar uma viagem de presente e passar em alguma praia paradisíaca e isolada da Bahia, mas mudei de ideia para não me expor ao aeroporto, ao translado, a uma casa nova etc.

Vim para minha casa de praia, isolada como fiquei por meses. Em um dos dias, meu vizinho que também estava isolado e se cuidando muito veio conversar comigo na varanda. Duas pessoas sentadas em uma área aberta conversando sem máscara. Infelizmente ele estava assintomático e me passou sem saber. Dias depois testou positivo. Eu também. Tudo isso para dizer que basta um mínimo deslize. Essa doença é traiçoeira. Não dá pra baixar a guarda nem por um segundo.

Primeiro de tudo, o autoperdão

Eu poderia ter ido para Bahia e escolhi ficar. Essa noite em que me contaminei duas amigas queriam ir jantar em um restaurante na praia. Não quis ir pra reduzir o risco de exposição, mas recebi o tal vizinho em casa... E quando tudo acontece você se culpa continuamente e repassa mentalmente a cena 888 vezes na cabeça, se perguntando "e se eu não tivesse conversado?".

No meu primeiro dia de hospital, entendi que precisava sair desse looping. Precisava me perdoar por esse deslize. O perdão era o primeiro passo para eu começar a me acolher. E esse acolhimento foi essencial pro medo não me engolir

Um dos sinais que me levou a internação foi a alteração drástica de um indicador inflamatório do corpo, a proteína C reativa. Esses dias de silêncio no hospital me fizeram pensar o quanto eu vivia uma vida inflamada e sempre me inflamando, ser perceber. Ou, pior, sem querer perceber e acelerando ainda mais.

Sempre fui extremamente exigente comigo e há anos operava uma vida me levando ao limite. Sou dessas que treinava 7 vezes por semana durante uma hora e meia, que cortava todas as calorias da comida, que trabalhava 14 horas por dia e fazia 38 coisas ao mesmo tempo com o orgulho de estar batalhando pelos meus sonhos. Estava inflamada e não percebia. Rebatia a dor e o cansaço com mais café, mais trabalho, mais proatividade... A covid me fez parar. Entendi que esse susto todo poderia ser um convite para eu mudar a forma como estava "cuidando de mim".

Me relacionar comigo mesma com mais calma e compaixão foi um processo. Ao longo dos dias fui percebendo o que alimentava minha fé, minha alegria e meus pensamentos positivos. E esse processo é delicado porque tem momentos onde você acha que está fazendo algo pra te ajudar e a coisa não rola. Via séries para me distrair, mas em alguns momentos a cabeça ia longe e a angustia batia. Em vez de negá-la ou de ficar com medo de ser engolida por ela (como sempre fiquei), entendi que o importante era ir testando novos pequenos prazeres para me ocupar.

Vou mudar de apartamento em breve. Comecei a comprar coisas online pra casinha nova. Isso me colocava já nesse lugar de esperança e de pensar esse novo lar que estaria me esperando quando eu saísse.

Voltei a me deliciar com as frutas (algo tão pequeno e que pra maioria de vocês pode parecer besta, mas que eu não me permitia comer sem contar calorias há anos). Degustava cada mamão e abacaxi que vinham na minha bandejinha. Pedi para meu pai enviar tâmaras para o hospital e comia duas todo dia de manhã, me deixando ser inundada por aquela doçura.

Voltei a ouvir música. Amo os hits anos 80 e descobri que ouvir Carly Simon cantando "Coming Around Again" enquanto eu balançava na cama me trazia uma alegria cafona maravilhosa.

Aprendi a ficar quieta e poupar energia. Nos primeiros dias quase não falei. Me permiti nem responder as mensagens. Queria que toda força do corpo fosse voltada para me curar. E isso foi essencial para meu processo de melhora.

Menos é mais

De volta à vida aqui fora, estou comprometida comigo mesma a manter esse ritmo mais lento como reafirmação do meu compromisso com meu próprio cuidado.

Não vou mais abrir 18 abas do computador e fazer 500 coisas ao mesmo tempo. Não quero mais me levar ao limite e achar que isso é autocuidado. Tenho feito tudo mais devagar, tenho degustado a comida, tenho me reconectado com meus ritmos e isso me abriu um jeito novo e lindo de viver o mundo. Com mais amor, compaixão e desinflamação.

Estou entendendo que quero aprender a cuidar de mim. Isso é lindo, potente e transformador e eu quero muito que seja a tônica da minha vida daqui em diante.

Além de todo esse processo de compaixão e reconexão com o autocuidado e o amor-próprio, esse período de covid só me fez ter mais clareza sobre a importância de cultivarmos vínculos de afeto com todas as pessoas à nossa volta.

Eu e o André Lage criamos o Soltos s.a. com o propósito de fomentar relações de mais afeto mesmo que no casual e incentivar que sejamos mais amorosos com nós mesmos e com os outros. Está sendo lindo perceber como isso faz cada vez mais sentido e como esse amor é tão potente.

Vejo que quando a gente se abre para relações amorosas, elas veem. Durante a estadia no hospital tive alguns sinais. Quis criar vínculos com cada enfermeira ou médica plantonista que entrava para cuidar de mim. Perguntava sobre a vida delas, contava sobre o soltos, sorria com os olhos e com o coração. Todas elas se abriam e me acolhiam de volta com uma humanidade e um amor transbordantes. Isso me deu uma paz enorme durante os dias mais turbulentos.

E ai, aparecem sinais lindos, nos quais me apeguei muito também. Perdi minha mãe quando tinha 5 anos. Ela se chamava Ana Cristina. A infectologista indicada pelo meu clínico para cuidar de mim nos dias de hospital também se chamava Anna Cristina. E ela cuidou de mim como uma mãe. Contei sobre essa coincidência pra ela e nós duas choramos juntas. Essa cumplicidade foi tão bonita e me deu tanta força. Sou muito grataa esse encontro.

Sou muito grata a cada amigo e familiar que compartilhou seu amor e preocupação das mais diferentes formas. Teve gente que me mandou pijama chique (sempre quis tê-los e nunca me permiti gastar com eles, rs), teve os que mandaram flores, panquequinhas veganas, docinhos saudáveis, links para filmes incríveis e a cada mensagem e demonstração de afeto me sentia mais amparada e acolhida.

Aprender a cuidar de mim está sendo lindo, mas compreender que sou amada e cuidada por pessoas tão especiais é acalentador. Transbordo de felicidade por ver que construí relações de afeto tão potentes. Cada um de vocês contribuiu com a minha cura. E me comprometo aqui publicamente a seguir alimentando cada uma das minhas relações de amizade e familiares com doses de afeto sem moderação.

Quero incentivar um mundo onde a gente cuide mais uns dos outros e também onde a gente pegue mais leve na autocobrança. Onde a gente olhe nos olhos (mesmo que agora tenha que ser intermeado por uma tela para manter o isolamento), onde a gente se importe e cultive gentilezas e momentos de presença. Que esse meu renascimento seja um convite pra gente desacelerar, se acolher e se cuidar.

Sei que estamos cheios de medo e em tempos difíceis, mas juro que o amor cura. E deixa tudo mais quentinho.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL