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Indigestão afetiva: você tá dando tempo de digerir os ex-amores?

Exagerou nos brigadeiros, né minha filha? - Heidi Younger/The New York Times
Exagerou nos brigadeiros, né minha filha? Imagem: Heidi Younger/The New York Times
Carol Tilkian e André Lage André Lage

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Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Colunista do UOL

11/11/2020 04h00

Quem nunca foi pra uma festinha de criança e voltou com azia pra casa? Tudo parece tão pequeneninho e inofensivo, aí você vai beliscando 5 kibes, 7 coxinhas, 3 risoles, 1 cachorro-quente e mais uns 7 brigadeiros e pronto... rola aquela indigestão que você mal consegue beber água e só pensa em dormir até o dia seguinte.

Acredite, a mesma coisa tem acontecido na vida solta contemporânea. Você vai beliscando vários crushes e quando se dá conta, está exausta sem saber muito bem o porquê. Provavelmente você está com indigestão afetiva!

No soltos sa, fizemos recentemente uma live com o psicanalista e professor Daniel Omar Perez, falando sobre o cansaço gerado pelas relações contemporâneas. Daniel explicou que grande parte da sensação de exaustão vem de não vivermos os lutos e as separações devidamente, mesmo em relação aos crushes.

"É importante fazer o luto justamente para poder passar para outra situação. Muitas vezes perdemos o objeto amado e ficamos ligados a ele, porque não queremos que desapareça. Ou seja, nos desfazemos da relação mas mantemos a pessoa presente na forma de ódio, ressentimento ou projeção. Às vezes nos separamos da pessoa mas não nos separamos da situação. E na tentativa de não viver o luto já buscamos outros romances, casinhos, encontros para colocar no lugar. Mas esse acúmulo de novas pessoas raramente dá certo. É como uma indigestão: se você está indigesto, não pode comer o próximo prato"

E de onde vem tanta indigestão?

Vivemos em tempos de área cinzenta, onde as relações não têm nem começos nem fim definidos: elas apenas vão esquentando e esfriando sem muito diálogo. Só que essa falta de pontos finais tem gerado um acúmulo de afetos confusos, ou seja, vamos acumulando muitos quase-amores. A verdade é que não estamos dando o tempo de fazer a digestão dos últimos rolos antes de começar novas relações.

E claro, todo mundo quer tudo pra ontem e ninguém quer perder tempo. Então, em vez de se permitir ficar sozinho e vivenciar mesmo um mini-luto, como definem Bárbara dos Anjos e Thiago Teodoro do podcast 'Estamos Bem?", preferimos ir em busca do próximo como um analgésico pra aquela dor da separação. Mas assim como nos analgésicos, estamos tratando os sintomas e não as causas. E um dia a conta chega: todas essas dores acumuladas e não tratadas se tornam um cansaço crônico que nos impede de nos relacionar.

Sintomas do cansaço crônico

Temos ouvido sobre essa exaustão no nosso inbox constantemente e ela afeta muito mais a vida dos solteiros que a gente imagina. Sabe quando você já chega no primeiro date sem saco nenhum, já achando que não vai dar em nada? (Alguém se identifica?) Se isso já aconteceu com você, provavelmente está indigesta.

Qual a chance de ser uma noite legal? Na real você nem sabe porque está ali, mas acha que tem que continuar procurando o grande amor, porque o tempo está passando. Esse processo acaba sabotando nossas relações, porque queremos muito um próximo amor, mas simplesmente não estamos em condições de começar nada novo, porque já estamos com a cabeça e o coração lotados de afetos confusos.

Fechado para siesta

Assim como na indigestão causada por brigadeiros, a solução aqui também passa por descanso da vida amorosa. Você precisa de dar atenção para os processos internos do seu corpo. Sabe aquele alívio quando você vai no banheiro na manhã seguinte da festa da sobrinha? Exato! Você precisa completar o processo de digestão desses últimos amores ou dores.

Fazer esse processo de separação internamente, colocar pontos finais, é difícil mas necessário. Aliás escrevemos sobre a importância de ritualizar esses finais aqui. Não estamos falando pra você esquecer essa pessoa (até porque isso é impossível), mas apenas pra nomear a relação, transformar em palavras e poder dizer pra si mesmo o que aconteceu. Basicamente organizar esse porão afetivo que anda meio (ou totalmente) bagunçado. E pra isso, muita análise, muita conversa interna e muito autoconhecimento.

Muita calma nessa hora

E aqui, mais uma vez, sem pressa. Não adianta achar que vai ser tão simples como chegar na frente do espelho e dizer pra si mesmo que acabou -.não é puramente racional e leva o tal tempo da digestão, que você não controla. O nosso corpo e nosso coração têm um tempo próprio. Apesar de todos os apps e avanços, tecnológicos, a digestão (física e afetiva) demora o mesmo tempo que demorava há 50 mil anos e claro também vai depender do prato que foi comido. Quanto maior a nossa implicação na relação, mais tempo pode demorar a digestão.

Como disse Daniel Omar Perez "ficar bem rápido responde à ordem da performance, não à ordem do corpo". Se respeite, se acolha e se dê o tempo necessário até que você esteja pronta de novo pra se deliciar nos kibes e risoles da vida amorosa. Só assim você vai conseguir saborear ao máximo essas calorias e sentir satisfeita em vez de indigesta.

Se você quer saber como sobreviver à solteirice em tempos de likes, segue a gente no YouTube e no Instagram. Toda semana a gente entrevista solteiros, especialistas e divide nossos aprendizados e teorias. Mande histórias e dilemas que a gente transforma em pauta!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.