PUBLICIDADE

Topo

Soltos

Por que nós, homens, não conseguimos identificar que estamos deprimidos?

iStock
Imagem: iStock
Carol Tilkian e André Lage André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Colunista do UOL

04/11/2020 04h00

Qual a primeira imagem que te vem à cabeça quando menciono "depressão"? Certamente alguém triste, cabisbaixo, talvez chorando ou com o olhar perdido? Mas e se essa pessoa tiver sido educada durante toda a vida aprendendo que não pode chorar e que tem que ser forte o tempo todo? Como será a depressão dela?

Como muita gente nessa quarentena (pesquisas mostram que 40% dos brasileiros sentiram tristeza ou depressão), eu passei por uma depressão. A diferença é que eu nem sequer conseguia identificar como uma, porque o que eu estava sentindo (em silêncio) não se parecia em nada com a minha ideia sobre estar deprimido. E acho que, assim como eu, muitos homens estão deprimidos mas não conseguem (ou não querem) se ver assim. Eles acham que estão apenas nervosos ou irritados, mas o buraco é bem mais embaixo.

Eu? Claro que não!

Pra quem não me conhece, eu sou o André. Sempre fui uma pessoa solar, sorridente, com uma alegria que chega a ser irritante. Confesso que sempre me senti quase imunizado contra a depressão. Já inclusive fui desses que olhava pra tristeza como uma fraqueza e não como parte da vida.

Eu já ajudei minha irmã em diversas crises de depressão severas quando ela ficava totalmente prostrada e me parecia inimaginável que eu poderia ficar daquele jeito um dia. E de fato não fiquei, porque os sintomas da depressão masculina são muito diferentes da feminina.

Durante a quarentena, além de todos os desafios que todo mundo enfrentou, as notícias ruins e as gastrites proporcionadas pelo governo, eu estava trabalhando em excesso e minha mãe adoeceu. Me senti tomado por medo e angústia, mas achava que tinha que dar conta de tudo, coordenar 4 médicos, o trabalho e me manter como pilar de sustentação emocional da casa. Eu dei meu máximo pra que as coisas melhorassem rápido. E claro, nada melhorou rápido... acrescentando frustração e impotência nesse caldeirão. Depois de um tempo começaram a surgir os primeiros sinais de agressividade.

Comecei a falar alguns absurdos, dar patadas e tratar os meus familiares com frieza. Me sentia um trouxa que fazia tudo pelos outros e ninguém fazia nada por mim. (É claro que as pessoas faziam coisas por mim, mas essa era a sensação). Ao contrário de triste, eu sentia um ódio no peito, que não passava e só me corroía. Até pensamentos suicidas de forma violenta passaram pela minha cabeça, coisa que jamais pude conceber.

Depois de algum tempo, comecei a perceber que eu não estava nada bem e procurei ajuda. Na análise comecei a entender que estava com sinais de depressão. Porque sim, os sintomas nos homens são muito diferentes: aumento da irritabilidade, aumento do cansaço, diminuição do desejo sexual. Além disso, os homens quase nunca procuram ajuda e, por isso, isso têm menos probabilidade de receber um diagnóstico de um médico. E isso explica muita coisa no mundo de hoje.

A deseducação sentimental

Se as meninas olhavam para as princesas como a referência do que era ser mulher, nós meninos nos inspiramos em super-heróis. Super-homem, Homem-Aranha, Batman: o que eles têm em comum? Eles têm uma vida secreta, como ser humano comum. Mas quando vestem uma máscara e uma roupa meio cafona e viram são heróis... Aí, estão sempre prontos, nunca erram, hesitam ou fraquejam. Ou seja, homem "de verdade" é o fodão que salva o mundo, não o ser humano real por trás da máscara.

Além dos heróis da Marvel, os outros modelos de masculinidade que aprendemos incluem James Bond, Rambo ou Vin Diesel: são fortes, potentes e nunca falham. Você já viu algum desses personagens de macho alfa triste ou confuso? A verdade é que eles parecem 95% razão e 5% emoção. E esses 5% de emoção são sempre algo entre a paixão, a alegria ou o tesão, nunca uma vulnerabilidade. Não é muito difícil entender porque a masculinidade é tão cagada né?

É claro que deu ruim

Somos ensinados que "menino não chora", que tem que ser corajoso, forte, que tem que dar conta de tudo? A verdade é que nós nunca fomos ensinados nem incentivados a compreender nossas emoções - isso era coisa de "menininha". Falta vocabulário emocional inclusive para nomear o que estamos sentindo. A única emoção vista como "aceitável" é a raiva - essa sim é masculina. Quem nunca ouviu: "Homem é esquentado", "isso é por causa da testosterona", "menino briga mesmo"? .

A agressividade é vista como uma característica masculina. Depois de entrevistar vários homens e especialistas em masculinidade no soltos s.a. eu entendi que a raiva acaba sendo a única emoção que conhecemos bem - um complexo de Hulk. Não é por acaso que 95% das violências no mundo são cometidas por homens e 7 em cada 10 pessoas que cometem suicídio são homens. A saúde mental masculina tá toda cagada. E ninguém tá falando disso.

Homens: nós podemos e devemos pedir ajuda

Depois de passar por essa experiência, eu consegui entender que o mundo não está cheio de ódio, ele está repleto de homens deprimidos. Não estou aqui passando pano para agressividades, pelo contrário! Mas em vez de só combater (corretamente) os sintomas, precisamos olhar para as causas. Senão, é apenas enxugar o gelo.

Eu obviamente não sou um representante de macho-alfa: eu falo publicamente sobre minhas emoções, já fiz análise, estudo a masculinidade e MESMO ASSIM deprimi no ódio. Eu consegui sair relativamente rápido graças à análise e agora olhando para trás, vejo como estava fora de mim. Hoje eu consigo ver que eu estava bem mal, mas durante a depressão eu estava literalmente cego de ódio. E se eu tive essa dificuldade toda, imagina como deve ser para um homem menos desconstruído, que acha que pedir ajuda é demonstrar fraqueza...

Depressão não é uma coisa de outro mundo, é muito mais comum que você imagina, ninguém está imune e tem tratamento. Precisamos urgentemente tirar o peso dessa conversa e passar a olhar pra agressividade masculina como um sintoma, quase um pedido de ajuda. Mais uma vez, nada justifica a violência e a agressividade, mas é muito difícil conseguir sair de uma depressão sozinho. Por isso, se você conhecer algum homem que esteja muito agressivo, mande esse texto pra ele. Quem sabe ele vai entender que não é só uma fase mais nervosa e sim depressão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.