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Não tô pronto pra relação... Será que estamos ficando "namorofóbicos"?

Tá difícil alguém que queria compromisso? - Getty Images
Tá difícil alguém que queria compromisso? Imagem: Getty Images
Carol Tilkian e André Lage André Lage

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Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Colunista do UOL

28/10/2020 04h00

Queride solteire, veja se você conhece esse roteiro: dois soltos se conhecem, começam a sair, a frequência de encontros aumenta e um dia um ouve do crush que precisam parar por ali, porque ele não está pronto para uma relação. E claro que nosso primeiro pensamento é "bom, ele só não estava tão a fim de mim... fazer o que?". Bom, não dá para ganhar sempre, mas já que esse roteiro tem sido cada vez mais comum, significa que ele é um comportamento. E se é comportamento, dá para gente estudar!

A gente entende que estar solteiro significa que vamos ter lidar com frustrações e rejeições, porque elas fazem parte das relações humanas. Mas o que me intriga é por que estamos todos com tanto medo do compromisso. Será que estamos amando tanto nossa liberdade que ficamos com medo de entrar em uma relacionamento e perder nossa autonomia? A verdade é que talvez a gente já tenha entrado em muitas relações que tiraram nossa independência, mas nem todas as relações são assim. Precisamos começar a diferenciar o que sempre vivemos do que pode ser vivido.

Vamos agora nos aprofundar nos 3 maiores medos por trás da namorofobia.

1. Medo da distração

Um estudo realizado pelo Tinder descobriu que 72% dos membros da geração Z tomou a decisão de se manter solteiro. E desses, 81% disseram que o principal motivo foi para poderem focar todas suas energias na vida profissional. E pelo que já vivemos e ouvimos no inbox do soltos, a vida profissional também tem sido usada de desculpa pelos mais velhos: muita gente acima dos 30 também não quer se comprometer.

Não é novidade nenhuma que vivemos em uma sociedade em que o nosso valor está intimamente associado ao sucesso profissional. E como vimos em uma entrevista com a professora Valeska Zanello, isso pesa ainda mais pros homens, porque o trabalho é identitário. Mas nem só de boletos é feita a vida. E uma hora a conta chega. Claro que podemos estar passando por um momento delicado que precisa da nossa dedicação, mas os psicólogos afirmam que precisamos de um equilíbrio entre as prioridades da vida a longo prazo. Eu sei que a vida está corrida e fica difícil dar atenção similar para o trabalho, família amigos, pensar no amor e ainda cuidar da saúde... Só que nunca vamos conseguir ser felizes quando estivermos focando apenas uma dessas áreas.

E só pra lembrar que milhões de pessoas conseguem conciliar uma vida profissional brilhante com uma relação saudável. Não tem que ser uma escolha. Inclusive tem muitas relações que nos nutrem e nos inspiram profissionalmente. Não estou dizendo que seja fácil, mas usar o trabalho como desculpa para não se envolver pode estar escondendo questões mais profundas. Recomendo terapia. (inclusive pra mim mesmo)

2. Medo de fechar portas

A internet não trouxe só possibilidades, ela também criou novas neuroses. É muita série pra ver, muito jornal, notícia, muito aplicativo pra procurar crush, muita gente em muitos lugares fazendo muitas coisas legais... Rola uma taquicardia só de pensar! Esse é o F.O.M.O. (fear of missing out), o medo de estar perdendo algo melhor. Como já diriam nossas avós, cada escolha é uma renúncia! Rola um medo de entrar em uma relação e perder a oportunidade de conhecer o seu "verdadeiro amor". A sensação é que se a gente procurar mais um pouquinho pode encontrar alguém mais legal, com mais assuntos em comum, que gere as tais borboletas do estômago, só que essa sensação nunca acaba?

A gente já fez um vídeo falando sobre o F.O.M.O. nas relações e no fim parece que ficamos sempre esperando alguém que vai nos fazer ter vontade de parar de procurar. Talvez seja uma releitura pós-moderna do príncipe encantado e a verdade é: a gente nunca vai encontrar o amor se não der tempo das coisas acontecerem. Essa idealização do amor à primeira vista só nos impede de ver que relações são construções que demandam tempo, energia e muito afeto para se tornarem sólidas. Estamos todos querendo o produto e não o processo - a Rita Von Hunty fez um vídeo incrível explicando essa diferença.

3. Medo da rejeição

Todo mundo já levou um pé na bunda. E eu sei que dói muito! E volta e meia temos realmente que dar um tempo da paquera pra conseguir colar os caquinhos. Faz bem. Mas ooooutra coisa é o medo da rejeição. Esse é o maior medo do ser humano, desde que nasce. A gente quer pertencer e ser amado - só isso. O problema é quando esse medo acaba gerando um efeito paralisante. Temos ouvido de muitos soltos que os crushes estão traumatizados com as últimas relações e por isso não querem se envolver.

O medo da rejeição é uma erva daninha que se espalha muito rápido. Pensa comigo: Uma pessoa que não superou esse trauma da rejeição vai ter medo de entrar em uma relação porque isso envolve outra vez o risco de ser rejeitada e vai fazer o que? Rejeitar as pessoas que queriam entrar em uma relação com ela. Ou seja. é uma bola de neve que vai nos transformar a todos em porcos espinhos, com medo de se aproximar uns dos outros e se machucar. Outra vez, terapia gente! Bora resolver isso aí?

Nada é para sempre

Talvez a primeira desconstrução que vai nos ajudar a lutar contra a namorofobia é de que o compromisso é para sempre. Entendo que a gente queira alguém pra chamar de nosso. Ficamos encantados com essa possibilidade de uma parceria estável e nutritiva. Mas relacionamentos não precisam ser eternos. Como toda relação humana, o namoro ou casamento chega ao fim e isso não significa que não deu certo. Precisamos tirar o peso negativo dos fins, eles doem, mas fazem parte do pacote.

E vamos ser realistas? Dá pra tentar e se não funcionar tudo bem. Pelo menos a gente tentou. Não foi tempo perdido e sim uma escolha de se dedicar a algo que te fez feliz durante aquele período. A vida é curta demais pra se deixar ser dominado pelo medo. Vamos juntos vencer essa namorofobia?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.