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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jovem tatuada pelo ex é vítima de forma de misoginia clara e violenta

Jovem tem seu rosto tatuado por ex-namorado em Taubaté - Reprodução
Jovem tem seu rosto tatuado por ex-namorado em Taubaté Imagem: Reprodução
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

23/05/2022 13h13

Um dos momentos mais perigosos em um relacionamento para uma mulher é quando ela termina. Essa hora é considerada crítica por especialistas em feminicídio. E, por mais absurdo que possa parecer, é fato que, quando decidem terminar, muitas mulheres correm risco de vida.

Segundo pesquisa feita pela Folha de S. Paulo em 2019, "a não aceitação do término" é a segunda causa dos feminicídios no Brasil. A primeira é o ciúme e a traição. Ou seja, o que mata é o machismo, o sentimento de posse.

A cultura machista em que vivemos faz com que homens pensem que "aquela mulher pertence a ele". E se ficar com outro, é "uma vadia".

Um exemplo bárbaro e emblemático desse tipo de crime aconteceu em Taubaté no fim de semana. A vítima é uma jovem de 18 anos que teria sido sequestrada por um ex namorado que, como todos os homens criminosos que engrossam as estatísticas, "não aceitava o fim".

O caso, além de bárbaro, é muito simbólico. Ele teria sequestrado a adolescente (que já tinha uma medida restritiva contra ele), a torturado e, em um gesto carregado de misoginia e violência, tatuado seu nome no corpo de jovem no rosto, peito e virilha. A mensagem é clara: a mulher é uma "coisa" ou um animal que é marcado em fazendas para que fique claro quem é o dono de cada vaca do rebanho.

Pesadelo sem fim

Os detalhes sobre o caso são angustiantes. A mãe da vítima, Deborah Velloso Moreira, compartilhou algumas mensagens que trocou com o agressor, implorando para que a filha fosse deixada em paz.

"Por favor, tô pedindo. Para com isso. Você já bateu muito nela. Eu sei tudo o que você fez, sei de todas as ameaças", escreveu a mãe da jovem por WhatsApp. "Dona Débora, para de mandar mensagem para mim, por favor. Nada do que você falar ou deixar de falar vai mudar o que eu vou fazer. Fechou? É isso aí. Forte abraço", ele respondeu.

Em nenhum momento o agressor demonstra culpa ou arrependimento. Parece decidido e, afogado em misoginia, diz para a ex sogra: "você também não é santa não".

Esse tipo de comportamento também é comum entre misóginos. O ódio às mulheres, nesse tipo de crime, não fica restrito só a vítima direta. Toda a rede de apoio da mulher ameaçada corre risco. Existem vários casos em que uma amiga que tenta ajudar, por exemplo, acaba agredida junto com a vítima que tentava salvar.

Qualquer pessoa (principalmente as mulheres) que tentar impedir que a violência se consome vira imediatamente uma cúmplice, uma "vadia", uma "mulher que não presta", como o acusado se referiu a Deborah.

No momento a mãe implora pela vida da filha. O agressor foi preso em flagrante no sábado e domingo teve a prisão preventiva mantida.

Déborah teme que, solto, ele volte a atacar a filha. E ela está certa, infelizmente. Agressores de mulheres costumam ser reincidentes.

É horrível concluir isso, mas o pesadelo da jovem de 18 anos, que terá que passar a vida convivendo com marcas de posse, misoginia e agressão, está longe de acabar. E não, esse não é um caso isolado, esse é um pesadelo para todas as mulheres.