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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cassação de Arthur do Val é vitória feminista. Mas é só o começo

Arthur do Val foi cassado por falas machistas e está inelegível por oito anos - Marco A.Cardelino/Alesp
Arthur do Val foi cassado por falas machistas e está inelegível por oito anos Imagem: Marco A.Cardelino/Alesp
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

18/05/2022 10h35

Não é fácil um deputado ser cassado no Brasil. No país, já foi possível, por exemplo, que o então deputado federal Jair Bolsonaro (PL) defendesse a tortura em rede nacional e ficasse impune.

Na noite do impeachment de 2016, Bolsonaro dedicou seu voto a "Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff ". Ustra era chefe do DOI-codi. E a ex-presidente Dilma, uma vítima da tortura. Como todos sabemos, Bolsonaro não só não foi cassado, como virou presidente.

Lembro essa história para afirmar que a cassação de Arthur do Val, o Mamãe Falei, é histórica e deve ser comemorada.

A Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) votou ontem a cassação do deputado, o que o torna inelegível por oito anos.

A decisão é um símbolo muito positivo e uma vitória da luta feminista. É incrível que um deputado seja cassado em um país tão misógino como o Brasil por machismo. Arthur, para quem não lembra, causou escândalo depois de vazado um áudio em que ele dizia que as refugiadas ucranianas eram "fáceis por serem pobres" . Ele foi até um local de guerra e achou que era ok tentar fazer turismo sexual.

Se não fosse a pressão das mulheres, a justiça não teria sido feita. Muitos homens também condenaram a atitude do Mamãe Falei, o que é ótimo. Mas isso só aconteceu porque nós, mulheres, estamos há anos gritando que certas coisas, como assédio e turismo sexual, não podem ser aceitas.

Essa é, sim, uma vitória, uma razão para comemorar. Mas também um lembrete de que a nossa luta está apenas começando. Um exemplo óbvio, Fernando Cury (União Brasil), da mesma Alesp, que assediou a deputada Isa Penna (PCdoB) na frente de todos —a cena foi captada pela TV Legislativa— ainda não foi cassado. Foi suspenso por seis meses. Depois de apalpar os seios de uma colega na frente de todos, ele manteve o emprego.

Esperamos, de verdade, que Cury também seja cassado. Assim como outros deputados ao longo do Brasil acusados de abusos e que já foram abertamente misóginos. E também vereadores como Gabriel Monteiro, do Rio de Janeiro, acusado de estupro, assédio e pedofilia. A punição dessas pessoas têm que ser exemplar.

Se Jair Bolsonaro tivesse sido punido quando disse, lá em 2014, que Maria do Rosário "era muito feia para ser estuprada", uma frase que corre o mundo para ilustrar a misoginia do chefe de estado do Brasil, ele nem teria sido eleito presidente.

Há muitos políticos, ainda, que precisam ser punidos. E deputados e vereadores, pagos com nosso dinheiro, precisam entender, nem que seja à força, que certas coisas não podem mais ser ditas. A cassação de Arthur Val é uma grande vitória. Mas a luta continua.