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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Pensei que ia morrer': Sonza mostra que ódio é mais forte contra mulheres

Luísa Sonza no Saia Justa (GNT); cantora detalhou que sente dores ao reviver ataques digitais - Reprodução / Internet
Luísa Sonza no Saia Justa (GNT); cantora detalhou que sente dores ao reviver ataques digitais Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

12/05/2022 15h02

"Eu não sabia mais o que fazer, minha mente não estava aguentando mais. A terapia não estava mais fazendo efeito, os remédios não estavam fazendo efeito. Eu estava com medo de morrer". Esse relato, super forte, foi feito pela cantora Luísa Sonza na quarta-feira (11), durante sua participação no programa "Saia Justa", do GNT.

Luísa se referia à Síndrome de Pânico que desenvolveu por conta dos ataques de ódio que sofreu (e sofre) na internet, e também fora dela. Luísa é uma moça de apenas 23 anos. E o seu "crime", que a faz ter que andar com seguranças por conta de ameaças de morte, foi ter terminado um casamento. É surreal, mas ela passou a ser atacada depois de romper um relacionamento com o comediante Whindersson Nunes em 2020.

Na ocasião, ela passou a ser culpabilizada pelos seus fãs pela depressão do cantor. E, no ano seguinte, quando uma tragédia aconteceu e o filho do cantor morreu no nascimento, os fãs passaram a culpá-la pela tragédia (sim, não faz sentido e é absurdo).

O fato é que Luísa virou uma verdadeira Geni, aquela da música de Chico Buarque, a que "é boa para apanhar e é feita para cuspir".

No programa, ela relatou cenas de terror como quando, para tentar relaxar com os amigos, alugou um barco. "As pessoas iam até o meio do mar para me xingar. Passavam de jet ski me xingando."

Ela relatou também um ataque de pânico que teve dentro de um avião.

"Entrei no avião e o homem colocou uma mala preta do meu lado. E foi para o fundo do avião. Achei que o cara ia me matar. Tive uma crise que me impediu de voar. A comissária me ajudou e eu não consegui fazer a viagem, tive que sair do avião e voltei para casa".

O "pecado" de Luísa, o que a fez passar por esse inferno e pelo pânico (uma doença séria, da qual ela não está curada), repito, foi apenas terminar um relacionamento. É difícil entender o fanatismo que faz alguém atacar uma pessoa por causa de uma questão dessas, da vida privada dela, e que acontece com todo mundo. Casamentos e namoros acabam todos os dias. É triste. Mas faz parte.

E é assustador ver o que os ataques de ódio podem causar e a violência deles. No meio do programa, ela comentou com as apresentadoras: "vocês não recebem ameaças de morte?", como se isso fosse uma coisa natural, já que para ela virou, mesmo, rotina.

É apavorante também ver como mulheres são culpabilizadas por tudo. Se ela terminar um relacionamento com alguém que sofre de depressão (uma doença que não é causada por "uma pessoa", mas por um conjunto de fatores), será tratada como uma megera responsável pela doença do outro, como se ela tivesse cometido um pecado e fosse uma monstra insensível. Detalhe, o próprio Whindersson nunca a culpou por nada.

Quando Luísa e Whindersson terminaram, ela começou a namorar o cantor Vitão, que foi considerado pela mídia de fofoca e por fãs o motivo do fim. Como o ódio é mais forte contra as mulheres, Vitão não sofreu nenhum ataque (ainda bem, ele também não é culpado de nada. E não, ninguém merece isso!).

Mas vamos fazer um exercício de inversão. Quando um casal querido por fãs termina e logo o homem começa a se relacionar com outra mulher, quem leva a culpa? A namorada nova, claro. A "nova" passa a ser vista como "o pivô", uma "destruidora de lares". E também passa a sofrer ataques de ódio.

Ou seja, esteja do lado que estiver, quem mais sofre com o ódio são as mulheres.

Segundo um levantamento da Safernet, 67% dos ataques de ódio na Internet são dirigidos a mulheres.

Isso não pode continuar assim. Não é justo que mulheres adoeçam por causa de ataques e ameaças pelo simples fato delas viverem. Afinal, Luísa não fez nada, nada mesmo. A não ser levar a sua vida.

Quer ajudar? Não participe de ataques a mulheres na internet, não incentive esse horror. Luísa não é a única vítima. Inclusive, um dia, a vítima pode ser você.