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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gamer narra estupro em live. Contar que abusa de mulheres ainda pega bem?

O gamer Robinho FGC foi banido de sua equipe depois de narrar abuso sexual em vídeo - Reprodução/Twitter
O gamer Robinho FGC foi banido de sua equipe depois de narrar abuso sexual em vídeo Imagem: Reprodução/Twitter
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

10/01/2022 14h03

Um homem falar que abusa de mulheres pega bem com os "camaradas"? Até bem pouco tempo atrás, sim. Nas conversas de vestiário que chegavam para nós, mulheres, homens se gabavam até de ser abusadores.

Eu achava que isso tinha mudado —pelo menos um pouco. Afinal, o feminismo hoje é popular e falamos sobre cultura do estupro o tempo todo. Mas, pelo jeito não mudou.

No dia 27 de dezembro, enquanto fazia uma live, o gamer Robson Pereira, conhecido como Robinho FGC, decidiu contar um "causo" para seus seguidores. Rindo, ele narrou que levou uma mulher para um barraco e chamou mais oito caras para "zoarem ela" (sic). Com detalhes repugnantes, que não serão reproduzidos aqui, ele confessou que praticou um estupro coletivo. Ou seja, confessou um crime. No fim, ainda disse que a "vadia merecia".

Nojento? Sim. Mas não deixa de ser interessante (no mau sentido) um homem narrar isso na internet em pleno 2021.

A vontade de impressionar os outros caras foi tão grande que Robinho FGC ignorou completamente os riscos. Ele deve ter achado, inclusive, que narrar um crime desses o fazia engraçado e muito, muito macho. Uma prova: o gamer começou dizendo: "Vou contar uma história e juro que não estou mentindo".

Pelo jeito, ele não tinha a menor noção de que transar com uma mulher bêbada e chamar outros caras para "arrebentar ela" era crime. Em nenhum momento, achou que poderia ter problemas com a lei.

Ou seja, muitos homens ainda nem sabem o que é estupro e que isso é crime.

Quantos, como ele, não têm noção de que, por exemplo, transar com uma mulher bêbada, logo, vulnerável, é estupro?

Muitos ainda veem esse tipo de abuso como "uma onda", algo que "pega bem".

Vamos lembrar que outro Robinho, o jogador de futebol, apesar de admitir que, junto a amigos, fez sexo com uma mulher bêbada, nega que tenha cometido crime. Ele foi condenado em duas instâncias na Itália e pode ser preso.

No caso do gamer, o fato foi denunciado no fim da semana passada e o vídeo nauseante dele narrando o episódio está na internet para quem tiver estômago para assistir.

Depois que o vídeo foi exposto, o jogador foi afastado da equipe em que jogava, o "Patoz Team". E o conteúdo passou a ser investigado pela polícia.

Robinho passou a negar tudo e afirmou que "estava apenas brincando".

Mesmo se fosse apenas uma brincadeira, como um homem pode achar que praticar violência contra mulher é algo bacana, de que vale tirar onda?

É difícil imaginar que Robinho tenha criado toda essa história de "levar uma mina bêbada para o barraco e chamar oito" do nada. Algo parecido ele deve ter feito.

E a vontade de provar que é "macho" é tão grande que um homem confessa esse tipo de coisa ao vivo. E depois tem gente que diz que cultura do estupro não existe.