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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ana Paula Siebert e a babá: inflluenciadores milionários ignoram vida real

Roberto Justus, Ana Paula Siebert e Vicky - Reprodução/Instagram
Roberto Justus, Ana Paula Siebert e Vicky Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

11/11/2021 11h45

Em uma noite dessa semana, a influenciadora Ana Paula Siebert, esposa de Roberto Justus e mãe de Vicky, de um ano e cinco meses, fez um desabafo em seu Instagram, rede na qual é muito ativa e exibe sua rotina glamourosa. Deitada e maquiada, ela confessou: "Gente, estou acabada. Sobrou só o pó na segunda-feira depois de um fim de semana cuidando da Vicky. Eu não estou acostumada a dormir com a Vicky. Todo dia ela dorme com a babá. E aí, nesse final de semana, eu dormi com ela e, a cada vez que ela se mexe no berço, eu me levanto da cama pra ver se está tudo bem, porque eu sou dessas! Então, é aquele sono picado. Mamães me entenderão. É um desabafo de quem está cansada".

A fala da influenciadora viralizou e gerou críticas. Não é para menos. A bolha dos milionários brasileiros cada dia parece mais distante e desconectada da realidade de um país onde milhares de pessoas passam fome e onde as mães nunca estiveram tão exaustas.

No caso de Ana Paula, ela tentou falar "de igual para igual" com as mães, mas errou no tom. As mães brasileiras, em sua maioria, estão mais cansadas do que nunca. E não é só por passar um fim de semana sem babá durante a noite.

A pandemia colocou muitas mães na linha da miséria. Muitas estão desempregadas e mal sabem como alimentar seus filhos.

Na classe média, as mães vivem um drama menor. Mas, mesmo assim, nunca foram tão exaustas. A pandemia levou muitas delas a terem crises de exaustão.

Por isso, não, a maioria das mamães não entende o drama de Ana Paula porque elas passam por isso todos os dias da semana.

Na manhã desta quinta-feira, a influenciadora rebateu as críticas: "Bem-vindos ao mundo dos juízes das mamães... Ao mundo onde as pessoas que não te conhecem julgam a sua maternidade".

A patrulha das mães é realmente chata, Ana Paula tem razão! E, não, seus dotes maternos e a sua relação com sua filha não podem ser julgados.

O que é difícil de entender é como os influenciadores ricos não percebem que a bolha onde moram é completamente diferente da realidade do país. Seria bom se eles olhassem em volta de vez em quando.

Essa não é a primeira vez (e certamente não será a última) que celebridades brasileiras são criticadas por causa de suas relações com babás, essa instituição dos remediados brasileiros.

O Brasil é o país com mais empregadas domésticas no mundo. Mais de 6 milhões de pessoas, a grande maioria mulheres, exercem essa profissão.

No país das empregadas domésticas, é comum que pessoas privilegiadas tenham vários empregados em casa.

Essa relação complicada, vez ou outra, vaza para as redes sociais. Em maio, a influenciadora Virginia Fonseca falava sobre seus preparativos para a chegada da filha Maria Alice e soltou: "A babá que a gente contratou vai ficar de segunda a sexta 24 horas. Sábado e domingo ela está livre. Só que, caso a gente precise de sábado e domingo, ela tem disponibilidade".

Esse tipo de relação, em um país como o Brasil, lembra os tempos da escravidão, quando sinhás tinham amas de leite para amamentar e cuidar dos seus filhos.

A maternidade de nenhuma mulher deve ser patrulhada. Mas é preciso parar de achar natural o fato de ser servido por outras mulheres e exibir isso em um país com milhares de pessoas na linha da miséria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL