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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Travessia de Tamara Klink é feito de geração de mulheres que vai longe

Tamara klink e seu barco, "Sardinha": velejadora chegou em Recife após três meses atravessando o Atlântico  - Reprodução Instagram @tamaraklink
Tamara klink e seu barco, "Sardinha": velejadora chegou em Recife após três meses atravessando o Atlântico Imagem: Reprodução Instagram @tamaraklink
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

03/11/2021 04h00

"Lugar de mulher é onde ela quiser". Essa frase, usada como um contraponto a terrível máxima "lugar de mulher é na cozinha", acaba de ser atualizada. Na lista de lugares onde uma mulher pode estar porque quer acrescente: no meio do Atlântico, sozinha em um barco de oito metros.

Quem nos mostrou isso, e deu uma lição e tanto foi a velejadora Tamara Klink, de 24 anos, que chegou na noite de segunda-feira (1º) no Recife (PE) a bordo de "Sardinha", seu barco de oito metros, depois de atravessar sozinha o Atlântico.

Tamara, filha do navegador Amyr Klink, veio de Cabo Verde, última etapa de sua viagem solitária que tinha como meta atravessar todo o Atlântico. Ela já havia vindo de barco da França, de onde saiu em agosto. Nessa última etapa, ela passou 17 dias em mar alto, sem ilha ou terra por perto. Literalmente, sem ter para quem pedir socorro.

A conclusão da travessia foi uma vitória com gosto de "conquista das mulheres". Ela deixou claro desde o início que não viajava sozinha e que acreditava na máxima feminista "juntas somos mais fortes". Ela criou a tag "Longe Juntas" nas redes sociais e foi acompanhada por milhares de outras mulheres no Brasil, que viajavam com ela lendo o diário de bordo que ela enviava para sua equipe em terra. Neles, leu poesias suas, escreveu poesia, refletiu.

Em entrevista a Universa antes de viajar sozinha de Cabo Verde ao Brasil, ela disse que queria desmistificar a ideia de que velejar sozinha em mares revoltos é coisa só de homem. "Não se espera que uma mulher que sorri e usa salto cruze o oceano, mas aqui estou", disse. Ela ainda fez um paralelo com as cenas de viagens famosas, onde mulheres estão sempre em portos, se despedindo com lenços.

"Há pouco tempo só tínhamos imagens de mulheres acenando no cais, despedindo-se dos maridos que iam viajar. Ao ler sobre história das expedições, concluí que a navegação sempre foi associada à virilidade, à força física, a atributos masculinos. Parecia que os homens que iam ao mar estavam sempre tentando provar que eram mais fortes do que os seus pares. Como uma mulher, que a princípio era mais frágil do que eles, poderia suportar situações que homens muito bravos tinham dificuldade de enfrentar?", disse, na mesma entrevista.

Ela está certa. Até uma mulher viajar sozinha (e de avião, com passagem comprada e reserva em hotéis) ainda é vista como algo perigoso (!). No caso de aventuras, fomos ensinadas que elas devem ficar para os homens, desde crianças estimulados a competir e exibir o espírito aventureiro.

Essa realidade pode mudar no que depender de mulheres como Tamara e outras meninas de sua geração, como a surfista Maya Gabeira, especializada em ondas gigantes, um dos esportes mais perigosos do mundo.

As mulheres da minha geração, as que têm mais de 40 anos, já sabiam que era errado que certos lugares nos fossem negados só por sermos mulheres. A gente já sentia que o mundo não podia ser dividido em coisas de meninos e meninas. A diferença é que a geração de Tamara não só constata que mulheres podem ir onde quiserem, como, de fato, vão.

Elas vão longe. Em todos os sentidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL