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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulher é estuprada em trem e passageiros não fazem nada. Não seja como eles

Mulheres fazem protesto na avenida Paulista contra a cultura do estupro - Cris Faga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo
Mulheres fazem protesto na avenida Paulista contra a cultura do estupro Imagem: Cris Faga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

22/10/2021 04h00

Na semana passada, uma mulher foi estuprada em um trem urbano na Filadélfia na frente de vários passageiros. O horror aconteceu por volta das 9 da noite, várias testemunhas viram a cena. Apesar de muitos terem filmado com seus celulares, ninguém ligou para a polícia, ou gritou para que o homem parasse, ou o empurrou. Ninguém fez nada. O ato durou 45 minutos até que uma funcionária da companhia de transporte da cidade interveio e, finalmente, ligou para a polícia.

O caso acendeu um alerta nos Estados Unidos e no mundo. Como as pessoas podem ter visto tudo e não ter feito nada?

"Eu posso falar para você que as pessoas estavam filmando a mulher enquanto ela era estuprada. Espero que vocês fiquem com raiva e enojados e ajudem o sistema a funcionar", disse Timothy Bernhardt, chefe superintendente da polícia que prendeu o estuprador.

É, sim, uma vergonha. E o que aconteceu para que as pessoas não fizessem nada?

Uma das possibilidades é que eles tenham pensado que se tratava de um casal (o estuprador estava sentado ao lado da vítima). Mas e daí? Segundo a polícia, vídeos mostram a mulher tentando empurrar o homem várias vezes. Sendo ou não um casal, seria estupro. Por favor, se você vir uma mulher dizendo não e o homem continuando a tocá-la, faça algo. Não é não. O mesmo vale, claro, se você vir ou ouvir uma mulher sendo agredida pelo parceiro. O hábito de "não meter a colher" quando se trata de assunto de casal precisa acabar.

E não é só no caso de violência contra mulher que precisamos começar a agir. Desde a popularização dos celulares com câmera, viramos todos paparazzi. Para alguns, mais vale ter like nas redes sociais do que ajudar alguém. Sim, infelizmente é comum que se filme um acidente em vez de socorrer as vítimas. Na Alemanha, existe, inclusive, uma lei que pune com multa aqueles que filmam em vez de ajudar. Sim, chegou nesse nível. É preciso fazer leis sobre o óbvio, já que o bom senso desapareceu.

As desculpas para não ajudar são várias. É comum que se fale: "eu não entendi o que se passava" ou "eu não quis me meter". Muitas vezes realmente não sabemos do que se trata. Mas, na dúvida, chame a polícia, ou grite, ou ajude.

Ser aliado na internet é fácil

É muito fácil que todo mundo se diga solidário e contra violências sofridas contra mulheres na internet. Mas, e na vida cotidiana, quando você tem a chance real de salvar uma pessoa, vai ficar paralisado?. Muitos homens se dizem aliados das mulheres. Pois então, essas são as horas em que precisamos de vocês de verdade. O mesmo vale para ataques racistas ou outros tipos de violência. Dizer-se antirracista no Twitter é fácil. Mas é preciso agir.

Outro dia passei por uma dessas situações-limite. Estava em um café em Botafogo, Rio de Janeiro, quando um segurança resolveu expulsar um pedinte batendo nele, à luz do dia, na frente de várias pessoas. Eu gritei para que ele parasse, mas ninguém me acompanhou. Todos permaneceram inertes.

A vida anda muito dura mesmo. Mas a gente não pode naturalizar o horror e deixar que violências aconteçam bem na nossa frente enquanto assistimos como se estivéssemos dopados vendo uma série. É vida real. Se liga.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL