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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Semana de Moda de Paris ignora pandemia, ostenta luxo e é alvo de protesto

Protesto na Semana de Moda de Paris - Getty Images
Protesto na Semana de Moda de Paris Imagem: Getty Images
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

08/10/2021 04h00

Na noite de terça-feira (5), no encerramento da Semana de Moda de Paris — que voltou a ser realizada com plateia pela primeira vez depois da pandemia — aconteceu uma cena emblemática. No meio de um salão de luxo, lotado por pessoas bem-vestidas e chiques, onde era realizado o desfile da Louis Vuitton, uma mulher apareceu segurando um cartaz onde estava escrito: "consumo excessivo = extinção".

Depois de desfilar por parte da passarela, ela foi contida por seguranças e levada para fora. Em outra cena, um rapaz segurava um cartaz onde se lia: "sem moda em um planeta morto". Ele foi rapidamente derrubado no chão por seguranças, enquanto modelos continuam desfilando modelos de alto luxo.

O momento "choque de realidade" aconteceu graças a um protesto do "Extinction Rebellion" (grupo de ativistas climáticos que existe no mundo todo) e foi um símbolo perfeito para a primeira Semana de Moda de Parisdesde o começo da pandemia - que, sempre bom lembrar, pode estar controlada mas ainda não acabou.

Depois de eventos adiados e shows feitos online, a elite da moda mundial voltou a se reunir em Paris. Claro, para entrar nos desfiles, foram exigidos atestados de vacina. Mas as máscaras foram abolidas. E, pelo jeito, o "baixo astral" ficou de lado.

Os milhares de mortos pelo coronavírus no mundo e o fato de a pandemia ainda matar (no Brasil são cerca de 500 mortos por dia) foram ignorados. As fotos e vídeos dos desfiles, inclusive, dão a impressão de que a pandemia não só já acabou, mas nunca aconteceu.

Lembram que lá longe, em março de 2020, quando a pandemia começou e até os mais ricos e famosos tiveram que ficar em isolamento? Naquela época , que parece distante, falou-se muito em uma tomada de consciência que faria com que as pessoas, por exemplo, passassem a consumir menos, a deixar o luxo de lado e focar "no que realmente importa". Isso foi chamado de "o novo normal".

Pois o mundo da moda que se reuniu em Paris nos deu a mensagem de que o novo normal não aconteceu. Parece que o mundo parou por um tempo, mas tudo voltou igual. As fotos de famosos na primeira fila, a ostentação... Tudo parece ter permanecido intacto.

Vários famosos brasileiros também aproveitaram que agora podem entrar na França de novo e participaram do evento.

E o que tem de novo? Entre as "novidades", o destaque é a "volta da minissaia", decretado pela Dior. A grife fez um show inspirado no clima libertário dos anos 60. Mas será que só a volta da minissaia resolve? E, como disse um amigo, desde quando a minissaia deixou de ser moda na vida real?

Resta saber se a nova geração, que se preocupa de verdade com as mudanças climáticas e é maioria em grupos como o "Extinction Rebellion", vai comprar a ideia de que esse glamour e esse desperdício (jogue as saias no joelho fora, comprem minissaias!) ainda faz sentido...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL