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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Choro de Daiane por Rebeca mostra que a vitória de uma pode ser de todas

Daiane dos Santos discursou e se emocionou com a medalha de prata de Rebeca Andrade - Reprodução/SporTV
Daiane dos Santos discursou e se emocionou com a medalha de prata de Rebeca Andrade Imagem: Reprodução/SporTV
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

29/07/2021 12h50

A ex ginasta Daiane Santos nunca ganhou uma medalha olímpica. Não que isso faça diferença para nós que admiramos seu trabalho. Mas toda atleta sonha em ganhar uma medalha em umas olimpíadas. O feito não foi realizado por ela, mas por Rebeca Andrade, que ganhou a medalha de prata em Tóquio na manhã dessa quinta-feira (29) e se tornou a primeira brasileira a ganhar uma medalha na ginástica artística feminina.

Alguém que não entenda nada de sororidade e insista em usar os clichês não verdadeiros que espalham sobre nós poderia imaginar que Daiane sentiria inveja de Rebeca. Tolinhos. Não sabem de nada, inocentes. E Daiane e Rebeca estão aí para provar que, mais do que ficar felizes pelas vitórias das outras, às vezes sentimos que essas são vitórias nossas (e são mesmo!).

Ao comentar a competição na TV Globo, Daiane pulou e chorou com o feito histórico de Rebeca, Daiane chorou de novo (e emocionou os telespectadores). "Agora a gente tem a primeira medalha do Brasil na ginástica artística com uma negra. Isso é muito forte. Isso é muito importante. Até pouco tempo os negros não podiam competir em alguns esportes. É uma menina que veio de origem humilde, criada por uma mãe solo!"

Daiane falou como alguém que estivesse vivendo um sonho (e estava mesmo). A emoção da ginasta com a vitória da outra foi tão genuína que fica claro que ela também ganhou.

Ver uma mulher negra e de origem pobre ganhar pela primeira vez uma medalha olímpica foi como se ela tivesse ganhado. Esse, provavelmente, foi um dos dias mais emocionantes da carreira de Daiane. E não, a vitória não foi dela diretamente. Mas, e daí? Quem disse que uma vitória de uma não é também de outra?

A reação de Daiane é uma aula de "sororidade", essa palavra que entrou na moda, e que significa o sentimento de união entre mulheres. No caso, a sororidade foi ainda mais forte, já que além de ser mulher, as duas atletas são negras e periféricas.

As duas sabem muito bem o quanto foi difícil chegar onde chegaram e o quanto o sucesso delas é inspirador para outras meninas.

Essa semana, Daiane contou em uma entrevista que outras ginastas se recusavam a ir ao banheiro com ela por ela ser negra (!).É com esse tipo de absurdo que meninas como ela e Rebeca têm que enfrentar.

É mais do que natural que uma inspire a outra. E, no caso das duas, a inspiração é literal.

A TV Globo resgatou uma matéria de 2009 sobre os treinos de Daiane e Laís Souza em Guarulhos. Na reportagem, ginastas crianças falam sobre a chance de treinar perto das ídolas. E quem está lá? Ela mesma, a Rebeca ainda criança. "É muito bom (elas treinarem no mesmo lugar) porque se a gente faz algo errado elas ajudam", diz a menina.

Sim, mulheres que são do mesmo meio ficam felizes umas pelas outras. E se ajudam. E a gente chora junto ao ver!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL