PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gordofobia olímpica: juízes do corpo alheio atacam atletas brasileiras

Bárbara, goleira do Brasil, foi chamada de "porca" por apresentador da TV holandesa.  - Amr Abdallah Dalsh/Reuters
Bárbara, goleira do Brasil, foi chamada de "porca" por apresentador da TV holandesa. Imagem: Amr Abdallah Dalsh/Reuters
Conteúdo exclusivo para assinantes
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

27/07/2021 04h00

As Olimpíadas desse ano começaram com mulheres mostrando que, além de competirem no esporte, sabem que têm muitos motivos para lutar. Pelo jeito, a briga vai ser longa. Mas é extremamente necessária.

Prova disso: nos mesmos Jogos em que as atletas da seleção de ginástica olímpica da Alemanha resolveram competir de calça contra a sexualização dos seus corpos, jogadoras brasileiras são atacadas por "analistas de corpos femininos", essas pessoas que adoram falar que uma mulher está "gorda", ou "fora de forma".

Esse tipo de comentário pode ser, além de ofensivo, criminoso. A jogadora de futebol Bárbara, por exemplo, foi chamada de "porca" por um jornalista na TV holandesa. O sujeito proferiu as seguintes frases ao criticá-la: "Essa goleira está acima do peso, não? É uma porca com um suéter. É uma zombaria total para a seleção brasileira".

Como uma coisa dessas pode acontecer em 2021? Que mundo é esse, onde homens ainda acham que podem chamar mulheres de porcas e gordas, ainda mais na televisão?

Bárbara recebeu muitas críticas pela sua estreia. E um dos ataques que mais sofreu foi esse: estar gorda. Não foi só o jornalista holandês (que espero que seja processado por Bárbara) que esbanjou gordofobia. Nas redes sociais, ela foi repetidamente ofendida e chamada de coisas como "gorda preguiçosa".

O mesmo aconteceu ontem com a jogadora de vôlei de praia Rebecca, que estreou com uma vitória no vôlei de praia ao lado da sua dupla, Ana Patrícia. Ou seja, mesmo quando ganha, uma mulher está sujeita a ouvir essas ofensas. Nas redes sociais, foram feitos os seguintes comentários sobre Rebecca: "Mulher é atleta e tem esse corpo. Só faz isso da vida". Outra comentou: "Aí depois a pessoa vem dizer que não tem apoio disso e daquilo. Com esse físico complica."

Ou seja, se a atleta não for magra, não merece nem patrocínio, já que é uma "preguiçosa". Um atleta precisa estar "em forma" para jogar? Claro que sim. Mas quem decide qual forma é essa são os técnicos e condicionadores físicos. Não somos nós.

Podemos criticar o jeito de uma jogadora agir em uma partida? Falar que ela errou? Claro. Mas não é porque ela é uma atleta que precisa de condicionamento físico que podemos criticar seus corpos. Inclusive porque estar magro ou gordo não significa estar em forma ou fora de forma. No caso de Bárbara, se ela jogou mal, bem, critiquem sua performance!

Mas, quando não tem nem o que criticar? Dão um jeito de olhar para o corpo. A jogadora de vôlei de quadra Tandara, por exemplo, que é uma das melhores da seleção brasileira, e chocou os espectadores com sua força. Opa, uma atleta forte é algo bom, não? Se ela tem força, é porque ela "está em forma." Mas, ao em vez de receber elogios, advinha? Alguns a chamaram de gorda.

"Gornaldo/ Fofômeno"

É mais comum mulheres terem seus corpos analisados do que homens? Sim. Mas a gordofobia atinge os homens também.

Quando li as ofensas ditas pelo comentarista holandês sobre Bárbara, lembrei do bullying sofrido pelo ex jogador Ronaldo Nazário por anos. No fim de sua carreira, piadas sobre seu peso estavam em todo canto. Parecia que, por se tratar de um jogador de futebol, a gordofobia estava liberada.

As ofensas a Ronaldo aconteceram há mais de dez anos. Mas, pelo jeito, pouco mudou de lá para cá. Ainda mais no caso das mulheres. Se uma jogadora foi chamada de "porca de suéter" na primeira semana dos Jogos Olímpicos, muitos ataques absurdos contra mulheres ainda devem acontecer. Infelizmente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL