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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Faz sentido terminar o namoro depois de descobrir que ele é bolsominion?

Caroline Tozaki, ex-bailarina do Faustão - Reprodução/Instagram
Caroline Tozaki, ex-bailarina do Faustão Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

09/06/2021 14h38

"Descobri que ele era Bolsominion e terminei na hora." A frase, que parece um meme, foi dita por Caroline Tozaki, ex- bailarina do Faustão, em entrevista ao jornal "O Dia". Ela falava sobre estar solteira nas vésperas do Dia dos Namorados e do seu término mais recente. Caroline ainda frisou que a ideologia para ela era importante, ainda mais sendo mulher e negra.

A declaração viralizou e isso porque, de fato, ela tocou em uma questão tragicômica que existe. Nas redes, muitas mulheres se identificaram e compartilharam sua foto escrevendo coisas como "essa sou eu". Por outro lado, apoiadores do presidente também compartilharam a entrevista, chamando a bailarina de feia, de comunista e dizendo que foi "um livramento" para o ex.

Ou seja, se entre a maioria das mulheres (proporcionalmente, ele é mais aprovado entre homens, 29%, do que mulheres, 21%, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em maio) a atitude de Carol foi compreendida e rendeu risadas de nervoso, já os apoiadores do presidente mostraram que também teriam dificuldade em ter uma relação com quem pensa completamente diferente deles.

Quando falamos de pensamentos totalmente opostos é o normal, não? Por que o fato de diferenças ideológicas radicais serem motivo para impedir um relacionamento é um tabu?

Bem, se a gente termina namoro porque o sexo não é tão bom assim, ou ainda por detalhes ridículos, tipo, "ele não dança bem" (não faça isso, você vai se arrepender!), por que não terminaria por ideologia?

E, atenção, nesse caso, não estou falando de simples opção política democrática, de votar para um candidato diferente do seu. Mas de, no momento em que quase 500 mil brasileiros morreram de covid-19, apoiar um presidente que já disse que a doença era uma gripezinha; que nele não seria nada, "porque tinha histórico de atleta"; e que já imitou mais de uma vez pessoas sem ar durante suas lives.

Isso fica ainda mais difícil de tolerar se você for mulher. E deve ser por isso que a maioria das mulheres não apoia o presidente. É difícil tolerar quem defenda as frases e atitudes de um presidente abertamente machista, que já chamou a esposa do presidente da França, Brigitte Macron, de feia, só para citar um caso. E se você for feminista? Bem, os apoiadores mais radicais do presidente vivem dizendo coisas horríveis da gente por aí. Como namorar alguém que parece não gostar da gente?

No caso de ser negra, como Caroline, é só ver o número de pessoas negras que morrem no Brasil atualmente para entender que ela não está em uma fase tolerante.

Apoiadores do presidente já destruíram placas em homenagem a Marielle Franco, que lutava principalmente contra o genocídio do povo negro nas favelas. Tem como ser calmo e tolerante?

Quando vi a declaração de Carolina, lembrei de uma amiga que, como eu, é brasileira e mora na Alemanha, e teve um encontro com um sujeito que conheceu por aplicativo. Ele parecia tudo de bom, era simpático e o beijo foi bom. Até que ele disse que apoiava a AFD (o partido de extrema direita alemão, que é, entre outras coisas, contra os imigrantes). "Então o que você está fazendo aqui comigo? Eu sou imigrante", ela disse. Foi embora e nunca mais falou com ele.

Não acho que minha amiga estivesse errada. Algumas coisas são inconciliáveis. Tem gente que é contra o presidente e consegue manter o relacionamento com um apoiador de Bolsonaro? Tenho certeza que sim. Principalmente em relacionamentos longos, dá para relevar esses momentos de diferença e, apesar de algumas brigas inevitáveis, encarar a situação com bom humor. Agora, para um começo de relacionamento, vamos admitir, é difícil mesmo. Tanto que, nos aplicativos de paquera, como o Tinder e o Grinder, muitas pessoas já avisam que são "fora Bolsonaro", ou que não querem mortadelas etc. E estão erradas?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL