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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

João Doria esquece que é governador e age como negacionista VIP

O governador João Doria (PSDB-SP) é visto sem máscara em hotel do Rio de Janeiro - Reprodução/Twitter/Eduardo Bolsonaro
O governador João Doria (PSDB-SP) é visto sem máscara em hotel do Rio de Janeiro Imagem: Reprodução/Twitter/Eduardo Bolsonaro
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

08/06/2021 04h00

Minha mãe mora no Rio de Janeiro e tomou a segunda dose da Astrazeneca há duas semanas. Um alívio e tanto. Mas sabe o que ela mudou na sua rotina? Nada. Continua trancada em casa e só sai para caminhar (de PFF2) no fim da tarde, com a rua vazia.

Ela faz o mesmo que a maioria dos meus parentes e amigos que estão no Brasil, sejam vacinados ou não.

E o que é recomendado por todos os especialistas. Segundo eles, no Brasil só vai ser "de boa" levar uma vida "quase normal" depois que a maioria da população estiver vacinada (hoje esse número é de cerca de 10,8 % das pessoas totalmente vacinadas e 23% com a primeira dose) e a pandemia dando sinais de controle. Não é o que está acontecendo agora. O momento no país é seríssimo, com ameaça de uma terceira onda.

Todo mundo sabe disso. Ou deveria saber. A não ser que você seja uma blogueira de moda negacionista, influenciador que aglomera, pessoa que lota festas em cidades como Campos de Jordão (refúgio da classe alta paulistana) ou o governador de São, Paulo João Doria (PSDB-SP), o rei das vacinas, um dos responsáveis pelo Brasil ter fabricado com o Instituto Butantan a CoronaVac.

Doria, que tomou a segunda dose na última sexta-feira (4), foi fotografado tomando sol no fim de semana bem relaxado e sem máscara em um hotel cinco estrelas do Rio de Janeiro.

Como pode?

Antes de ser eleito prefeito de São Paulo, João Doria era socialite, empresário e apresentador de um programa de entrevistas na TV. Ele era um homem da sociedade, amigo dos ricos e famosos e frequentador do jet set.

Vez ou outra, ele parece esquecer que hoje, além de socialite (uma espécie de influencer rico do passado) é governador de um Estado. E um governador que prega o isolamento social e o uso de máscaras.

Os colegas de sociedade de Doria não têm dado um bom exemplo na pandemia. Lembram do engarrafamento de jatinhos em Trancoso no fim do ano? Dos ricos e famosos ostentando viagens a ilhas paradisíacas? Daqueles que agora viajam para Miami, depois de dar uma passadinha pelo México, para se vacinar e postam fotos com drinques exóticos nesse meio tempo? Essas são pessoas que acham que por terem dinheiro e poder, nada de mal vai acontecer com eles. Com um PCR aqui, outro ali, acham que tudo bem levar uma vida quase normal, apesar disso não ser o recomendado pelos especialistas sérios no momento.

Ano passado, em outro momento de "amnésia", Doria viajou para Miami para as festas de fim de ano. O turismo do apocalipse acabou com ele voltando no dia seguinte e pedindo desculpa. Como pode?

Ontem, quando as fotos do governador se bronzeando no bem bom foram divulgadas, muitos comentários diziam que "as fotos não eram nada demais", que ele "tinha esse direito". Espera, se a gente cobra exemplo e responsabilidade social de influenciadores e artistas não vai cobrar de um governador?

Assim que recebi a tal foto, mandei para um amigo que está trancado em casa há 15 meses em São Paulo, o estado governado por Doria. Esse amigo, que não ocupa cargo público, não saiu de casa mais de cinco vezes nesse tempo (e uma delas foi para tomar a primeira dose da vacina). "É revoltante", ele disse, da sua casa onde está trancado por tempo indeterminado.

"Ah, mas todos têm direito de tomar sol." Claro que sim! Agora, um governador, no meio de uma pandemia, o mesmo que diz para que as pessoas evitem viajar? Não pode fazer isso, não. Quer dizer, poder até pode. Mas precisa se explicar, se desculpar —e lembrar, de uma vez por todas, que não é mais um VIP que "faz o que bem quer".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL