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Nina Lemos

Karol Conká: não use o feminismo pra justificar tirania e bullying

Lucas e Karol Conká durante Jogo da Discórdia no BBB 21  - Reprodução / TV Globo
Lucas e Karol Conká durante Jogo da Discórdia no BBB 21 Imagem: Reprodução / TV Globo
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

02/02/2021 13h09

Tenho certeza que não fui a única mulher a ficar animada ao saber que a rapper Karol Conká iria participar do BBB. A cantora fala sobre feminismo e é um nome conhecido do rap. Eu achava que ela ia arrasar e ainda tornar o feminismo mais popular. Sim, esse tipo de programa serve também para isso.

Assim como a maioria das mulheres do Brasil, quebrei a cara. Karol Conká tem mostrado no programa que é uma pessoa autoritária e manipuladora. E, o que é pior, ela tem usado o feminismo para justificar algumas dessas atitudes.

Para quem não está acompanhando: Karol é a líder não oficial da casa, onde manda, manipula e pratica bullying.

Desde o fim de semana, os participantes do programa passaram a atacar psicologicamente o também rapper Lucas Penteado, depois de ele ter um comportamento ruim em uma festa.

Karol é a líder do bullying. Ontem, mandou o sujeito sair da mesa para que pudesse comer sem olhar para a cara dele. Ela xinga, humilha. Lucas, muitas vezes, acaba chorando sozinho, enquanto os outros riem e falam mal dele, em um show dirigido por Karol. As atitudes dela são tão abusivas que espectadores do programa pedem que ela seja expulsa. Ela também faz bullying com outra mulher, Juliette.

Nenhumas dessas atitudes têm a ver com feminismo. Mas Karol não sabe disso. Ela parece achar que ser "empoderada" ou poderosa é ser uma pessoa que humilha os outros.

No caso de Lucas, ela passou a chamar o rapper de "abusador". Vamos lá, abuso é uma coisa seríssima, que o feminismo combate. Por isso mesmo, devemos chamar de abusador quem de fato sabemos que é. Não alguém que foi chato ou de quem não gostamos.

Na madrugada de ontem, para justificar suas atitudes, ela disse: "Quando eu me sinto abusada, eu tenho que reagir, todas as mulheres deviam fazer o mesmo."

Sim, claro. Mas isso não significa que quando alguém enche o seu saco, ou quando você não gosta de alguém, você tenha o direito de abusar da pessoa. E sim, Karol, mulheres também podem ser abusadoras.

É triste. Mas ela tem mostrado no programa que mulheres podem, sim, reproduzir comportamentos que em geral associamos ao machismo.

Um outro exemplo foi dado pela jornalista Marina Lang no Twitter:

"A Karol Conká está de parabéns porque dá aula sobre o que é gaslighting: contar mentiras chocantes, distorção da realidade, formar redes contra pessoa, diminuir. Didático".

Gaslighting é aquela manipulação, cometida por muitos assediadores, que faz a gente achar que está louca, ou que estamos "vendo coisas."

É chocante, mas ela parece ter manipulado boa parte da casa. E, acha ela, que vai agradar por estar "praticando feminismo".

"Tudo o que os caras querem ver é esses caras folgados se fodendo nas mãos de uma mulher", ela disse ontem. Em seguida, comparou Lucas, que foi chato sim em uma festa mas de quem ela não tinha prova alguma de crime, com o goleiro Bruno (!).

Não, Karol, praticar abuso moral e calúnia não são atitudes feministas. Deixe o feminismo fora dessa.