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Luciana Bugni

Desligue o Big Brother e vá se alienar de verdade pra sobreviver outro ano

Karol Conká no "BBB 21": se alienar está saindo pela culatra - Reprodução/Instagram
Karol Conká no "BBB 21": se alienar está saindo pela culatra Imagem: Reprodução/Instagram
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista de Universa

02/02/2021 09h34

Brasileiro não tem uma alegria sequer. A gente costumava começar os anos esperançoso porque já na aterrissagem do sétimo pulo da sétima ondinha começava a preparação para o Carnaval. O evento que na teoria dura 4 dias, mas na prática dura dois meses, deixaria o país com histórias para contar e fragmentos de glitter pelo sofá pelos próximos dez meses.

Nos tiraram o Carnaval. Não eles, os governantes, o grande irmão. Uma força maior, de nome coronavirus, que na verdade é bem menor que glitter e entra nos nossos corpos causando todo tipo de avaria por muito tempo. Basta respirar. Não dá para fazer carnaval sem respirar, sem beijar, sem lamber as pessoas. É melhor ficar em casa, tranquilo. Tranquilo?

Os corações ansiosos à espera do Carnaval costumavam ter paz no início de janeiro, quando a Globo enche uma casa linda de pessoas lindas e gostosas que se preocupam em malhar, se pegar, beber. Lá, ninguém leva celular. Ninguém pode ler. É uma alienação completa nas telas que transborda para o lado de fora.

Mas chegou o BBB para escancarar que a importância da terapia devia ser uma lição para todos.

Karol Conká me disse que não tem paciência

Karol me disse numa entrevista que nunca sofreu o racismo. E que não tem paciência para babaca. A questão é como a gente usa o próprio crivo maniqueísta para decidir que só a gente é bom. Não costuma dar certo. Enquanto você lia esse texto, ela perdia mais centenas de seguidores. Quando tem babaca demais no mundo, é a hora de olharmos para nós mesmos para ver se o erro não está partindo daqui de dentro.

Mas é fácil? Não é.

Alienação grátis sai caro

A internet se travestiu de campanhas: "feche esse livro e vai ver o BBB", "eu quero é me alienar", "eu amo o Fiuk". Mas que surpresa, até isso nos foi tirado. A casa, um espelho da nossa sociedade em tempos pandêmicos, escancarou as nossas próprias mazelas. O racismo, o achar que fez muito só por entender seus privilégios, o surto, o machismo (vindo também de mulheres quando estão disputando um mesmo homem), a crueldade, o cancelamento. Não tem lado bom.

E aí me diz: como você vai se alienar de sua própria e dura realidade se, quando liga a TV, ela está ali, em seres humanos mais duros e egoístas ainda?

Personificar o ódio e o mau caratismo da sociedade numa mesma Karol Conká não parece estar ajudando, se a verdade é que ele está em nós.

Acordei essa madrugada e passei algumas horas insone, pensando nas notícias que leio sobre política, no país aprovando um governo cruel, no egoísmo de quem me cerca dividindo drinks em festinhas, na maldade de Karol apoiada por uma casa inteira. Manipulados ou apenas concordando com o que querem ouvir? Os Brothers são nosso espelho, ouvindo um governo que incentiva a morte, e se aglomerando porque ninguém mais aguenta ficar em casa. Pela saúde mental de Karol, pela sua saúde mental. É justo fazer o que você acha certo sem olhar o outro?

E para quem não está dando conta? O conselho é se alienar de verdade: as comédias românticas imbecis em que as pessoas nem transam para não complicar e tudo culmina em um beijo são as minhas favoritas. Minha amiga Natália disse que prefere os dramas coreanos: a garota tropeça e o cara pega ela no ar, não dá nada errado. Vitor disse que tinha se sentido esgotado com o BBB e voltaria para os cavaleiros do zodíaco. São escolhas.

Ou a gente faz aquele método antigo de alienação analógica: desligar a TV e abrir um livro.

Distrai que é uma beleza, tira da realidade, às vezes até ensina umas coisas para que a gente não saia por aí reproduzindo comportamentos que a gente inventou como se estivessem certos.

E aí o jeito é esperar o Carnaval. 2022 aponta na esquina. Uma hora a coisa desenrosca e você se cobre de glitter. Aí a coisa anda. Você pode discordar de mim no Instagram.