PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

Fiuk lava louça e encanta: homens ainda viram heróis quando fazem o básico

Calma, mulherada: Fiuk é só um cara que faz o que todas nós fazemos - Reprodução/ Rede Globo
Calma, mulherada: Fiuk é só um cara que faz o que todas nós fazemos Imagem: Reprodução/ Rede Globo
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

28/01/2021 04h00

O cantor Fiuk é o novo queridinho do Brasil. O rapaz mal entrou no BBB e já deixou as meninas encantadas dentro e fora do programa. Eu entendo. Em terra de homem Chernobyl, um cara sensível, que chora e gosta de dançar, é rei.

Tipos como o do cantor fazem sucesso desde quando eu era criança. Nessa época, fui apaixonada pelo pai de Fiuk, Fábio Jr, que lá pelo início dos anos 80 também fazia a linha homem sensível.

Mas uma outra característica de Fiuk está fazendo sucesso e deixando muitas meninas suspirando: o moço de 30 anos lava a louça, troca o lixo, conversa com as meninas sobre limpar a casa. Ou seja, ele faz tudo o que todas as mulheres fazem e o que qualquer pessoa adulta deveria fazer... Só que, como ele é homem, isso é considerado uma espécie de superpoder.

É um pouco chocante ver, em pleno 2021, mulheres suspirando porque o sujeito, além de bonitinho, faz simplesmente o que todo ser humano maior de 12 anos deveria fazer.

Alguns dos comentários: "homem que limpa a pia é gatilho!", "Meu sonho: ter um namorado que lave a louça sem eu ter que mandar"... "Fetiche de toda mulher: homem que faça tarefa doméstica."

"Não é possível, esses comentários parecem da idade da pedra", comenta um amigo que é o melhor dono de casa que eu conheço. "Não é normal homem lavar a louça, passar um pano?", ele pergunta, inocente. Bem, meu amigo é gay. No mundo hétero brasileiro de 2021 isso ainda não é normal. Como bem mostram os comentários que li espalhados pelo Twitter.

Ser um cara bacana continua sendo super fácil, como lembrou, também no Twitter, a colega Mari Messias: "Malandro é o homem que colocou a barra dele tão embaixo que qualquer coisa faz dele um herói."

Ser um cara incrível, fabuloso, fora do normal, praticamente um Rodrigo Hilbert (que não seria esse herói se fosse mulher, diga-se de passagem), continua sendo fácil. Basta o sujeito saber conversar, comer com garfo e faca, não ser abusivo e saber cozinhar. Se ele for um pai que leva o filho no parquinho sozinho, ganha pontos extra. Pais são considerados super sexies. No caso das mulheres, nunca ouvi um homem dizer: "nossa, acho o máximo quando vejo uma mulher com carrinho de bebê no parquinho".

A situação, sinto dizer, é pior no Brasil do que no resto do mundo. Na Alemanha, onde moro, homem lavar a louça, passar aspirador, cozinhar e limpar a privada é simplesmente normal. Sim, aqui os homens, no geral, costumam agir como adultos funcionais nessa área.

E, claro, não são todos os homens do Brasil que se comportam como reizinhos de cinco anos. Muitos deles cumprem as tarefas básicas de uma casa sem a mulher "ter que mandar" (socorro, eles não são crianças!). Mas eles, pelo jeito, ainda são minoria. Se cruzar com um deles, aja normalmente, ele não está fazendo mais que obrigação! Não passe pano para um homem só porque... enfim, ele passa pano na pia.