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Nina Lemos

Juíza antimáscara mostra perigo de "maus influenciadores" na pandemia

Juíza Ludmila Lins Grilo ensina a burlar uso de máscara - Reprodução/YouTube
Juíza Ludmila Lins Grilo ensina a burlar uso de máscara Imagem: Reprodução/YouTube
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

06/01/2021 17h14

O vídeo viralizou. Nele, durante um passeio no shopping, a juíza da infância Ludmila Lins Grilo resolveu dar uma dica para seus seguidores. Com um sorvete nas mãos enquanto caminhava e com cara de deboche, ela disse: "Passo a passo para andar sem máscara no shopping de forma legítima, sem ser incomodado e ainda posar de bondoso: 1. compre um sorvete; 2. pendure a máscara no pescoço ou na orelha, para afetar elevação moral; 3. caminhe naturalmente."

Usar máscara é obrigatório por Lei em Niterói, no Estado do Rio, onde o vídeo foi gravado, e Ludmila, além de juíza, um cargo que exige que a pessoa tenha responsabilidade, também é influenciadora, com mais de 150 mil seguidores no Twitter. Ela devia dar exemplo, mas preferiu gargalhar das regras. Sim, uma juíza, repito, fez tutorial de como desrespeitar a lei.

Essa não é a primeira vez que a juíza mostra comportamento "ativista" contra as medidas de contenção do Coronavírus. No dia 31, ela desejou feliz ano novo para seus seguidores no Twitter. Completou com os votos de "aglomera Brasil".

No dia seguinte, postou uma foto de Búzios lotada durante o feriado de ano novo e comentou: exemplo de cidade que não se entregou docilmente ao medo, histeria ou depressão."´

O desserviço prestado pela juíza tem rendido muitas críticas. Ela foi denunciada ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Mas Ludmila ganhou seguidores e também virou uma espécie de heroína pela "liberdade" (de matar?). Na madrugada dessa quarta-feira, a tag "somos todos Ludmila" era um dos assuntos mais comentados do Twitter no Brasil.

Sim, pessoas estão morrendo. Na terça-feira, 1.171 pessoas morreram de Coronavírus no país. Em algumas cidades, como Manaus, o sistema de saúde opera à beira do colapso. Teme-se que o mesmo aconteça em outras cidades. E um dos motivos para o aumento dos casos é, também, as multidões que se reuniram no ano novo em várias cidades, o tal "aglomera Brasil" que a juíza celebra.

Como assim, nesse momento, alguém que ensina a não usar a máscara, a dar um jeitinho para burlar uma regra que visa a proteção de todos recebe toda essa defesa?

Ludmila não é a única. No mundo todo influenciadores "anti-máscara" dão cara a uma espécie de movimento negacionista que se espalha na Europa e nos Estados Unidos desde o início da pandemia, o dos "pensadores laterais", também conhecidos como "Covidiotas".

Na Alemanha, onde moro, esse movimento reúne fanáticos da teoria da conspiração e também neo-nazis. Os mais famosos representantes do movimento atuam nas redes sociais.

O desserviço prestado por essas pessoas é sério.

Em época de influenciadores digitais e durante uma pandemia onde a comunicação faz toda a diferença, maus influenciadores, aqueles que são uma má influência, são perigosíssimos e precisam ser combatidos. A influência negativa, nesse caso, pode custar vidas. É, literalmente, caso de vida ou de morte.