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Nina Lemos

Temos inveja de Neymar e de quem vive como se não existisse coronavírus?

Neymar no Réveillon 2021 - Reprodução/Instagram
Neymar no Réveillon 2021 Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

01/01/2021 14h07

Como muita gente no mundo todo, passei a virada do Ano-Novo em casa, sem festa. Éramos apenas duas pessoas e depois da meia-noite eu já estava entediada e poderia ter ido dormir. Mas aí veio a insônia, essa companheira de isolamento. E o que eu fiz então? Fiquei olhando fotos e vídeos de pessoas em festas Brasil afora, sem máscara, todos se abraçando.

Fui a Jurerê Internacional, passei por Trancoso, por Pipa e cheguei a Bonito. Em todos esses lugares, pelas fotos e vídeos, parecia que não havia pandemia. Isolamento social era uma ideia de algum seriado distópico da Netflix. Dei uma passada também por Mangaratiba, onde queria saber sobre a tal festa do Neymar para 500 pessoas (que parece ter sido uma celebração bem mais "simples" do que a anunciada antes. Mas vi uma mesa chique enorme e Neymar fazendo teste de Covid.)

Não fui a única. Tanto que comentei com amigos sobre tais festas e trocamos notas sobre festas clandestinas fechadas pela polícia em Trancoso. Continuava firme na minha atividade de fiscal da quarentena (apesar de renegar esse rótulo) quando li que Neymar teria dito que as críticas a sua suposta festa eram "inveja". E pelo que entendi os invejosos seríamos nós, jornalistas.

Parei para pensar. Será que eu tenho inveja do Neymar e dessas outras pessoas festejando como se nada houvesse?

Realmente, eu perdi meu tempo sendo voyeur de festas e preocupada com as tragédias que podem acontecer em uma, duas semanas. E, quando vejo esses vídeos, penso em hospitais lotando, pessoas doentes ficando sem vagas e não durmo direito. É claro que eu preferia ter passado a virada do Ano-Novo no mundo que vi na tela do meu celular: aquele onde não existe Coronavírus e onde as pessoas podem se abraçar. Nesse mundo paralelo, ninguém parece perder o sono pensando na morte. Talvez eu tenha, mesmo, inveja.

Eu preferiria mil vezes passar a primeira noite do ano com pensamentos mais alegres e positivos, abraçando pessoas, vendo o sol nascer dançando. Mas, o que fazer? Quem acredita na ciência sabe que enquanto não tiver vacina (e a maioria das pessoas estiver vacinada, o que vai levar um bom tempo) a única maneira de conter a propagação do vírus e evitar mortes é: manter distância, evitar multidões, usar máscaras. E, em momentos de aumentos de casos, como o que acontece agora no Brasil e na maioria dos países atingidos, o indicado é, quem pode se dar a esse luxo, fique em casa.

Em Berlim, onde moro, festas de mais de cinco pessoas estão proibidas. Na França, onde Neymar mora, a recomendação do governo era que no Ano-Novo as pessoas recebessem no máximo seis pessoas em casa. Bares, restaurantes e clubes estão fechados nesses países. Na França houve toque de recolher às 20h na noite do Réveillon.

Deve ser bom mesmo esquecer tudo isso por uma noite, se achar invencível e conseguir não pensar nos outros. Como dizem por aí: a ignorância é uma benção...