PUBLICIDADE

Topo

Blog Mulherias

"Perifericu" é o filme mais transgressor que você vai assistir em 2020

Flávia Martinelli

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Colunista do UOL

09/10/2020 04h00

Por Well Amorim, jornalista, bixa preta periférica, diretor de fotografia e produtor executivo do Perifericu, especial para o blog MULHERIAS

No início do ano, na 23a. Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), a equipe do filme Perifericu fez um pancadão de rua para comemorar o Prêmio de Curtas que havia acabado de ganhar. Era necessário possibilitar a nossa existência em um ambiente tão hegemônico como o dos tradicionais festivais de cinema.

Éramos umas 15 pessoas, todas da quebrada, entre atores, produtores, técnicos, além das quatro diretores do curta-metragem que fala sobre ser mulher, negrx e LGBT+ no contexto periférico de São Paulo. Duas delas são DJs e um carro com farol ligado foi a iluminação da nossa pista na praça do festival. Fomos expulsos da rua pela polícia por reunir tanta gente "perigosa em conjunto".

Mas quem somos nós? Para começar, corpos pretos periféricos como as personagens Denise e Luz, que são amigas e vivem no Grajaú, no extremo Sul de São Paulo. Moram especificamente na Ilha do Bororé, onde muitos nem imaginam que exista uma balsa para atravessar a represa e só assim se chegar em casa.

Denise e Luz (interpretadas respectivamente por por Stheffany Fernanda e Vita Pereira e que também dirigem o filme) são potências colocadas à margem mas que se impõem no mundo. Fazem isso, porém, com muito afeto. Descolonizam sua existência com ancestralidade e uma boa dose de deboche. Elas existem e estão aqui, todos os dias, no gerúndio, amando, dançando, sonhando, sendo o que são. Ou melhor, o que somos.

perifericu  - Reprodução  - Reprodução
Denise e Luz, interpretadas respectivamente por por Stheffany Fernanda e Vita Pereira, também dirigem o filme
Imagem: Reprodução

Nossa equipe diversa, assim como os personagens e figurantes do filme, existem entre as poesias dos saraus periféricos e as músicas evangélicas de louvor. O que somos existe entre a dança vogue e o busão, o trem ou a balsa. Entre o desemprego, o corre pra fazer dinheiro com bicos e os nossos sonhos e paixões. Somos seres poéticos e políticos. Reais, de verdade, não apenas os retratos sem voz do noticiário policial ou dos estereótipos que outros nos dão por ai.

Perifericu - Divulgação  - Divulgação
Cena do Curta Perifericu, dirigido coletivamente por Rosa Caldeira (cientista social, homem trans, multiartista), Stheffany Fernanda (DJ, técnica de produção, estudante da Universidade Federal da Integração Latino-Americana), Nay Mendl (cineasta periférico, trans) e Vita Pereira (multiartista, travesti e produtora cultura, formada em Pedagogia e Teatro)
Imagem: Divulgação

A Mostra Tiradentes, conhecida por sua curadoria atenta, não foi a única que nos premiou. Ganhamos em todos os festivais em que nos inscrevemos até agora. Entre eles, fomos eleitos pelo júri popular como melhor melhor curta-metragem nacional e levamos o prêmio Suzy Capó de obra mais transgressora do Festival Mix Brasil 2019, voltado para o público LGBTQ+. E isso aconteceu logo no dia 20 de novembro do ano passado, Dia da Consciência Negra. Tão simbólico, tão importante.

Perifericu - Divulgação  - Divulgação
Premiação na Mostra de Tiradentes: equipe subverte a estrutura organizacional do cinema brasileiro no qual, em geral, o diretor é um homem branco cis, hétero normativo e de classe média com equipe também branca
Imagem: Divulgação

"Perifericu" está rodando pelas mostras de cinema nacional e já partiu para o mundo. Até domingo (11/10) é possível assistir o filme no festival Mov.Cidade, evento que trata da relação das pessoas com os centros urbanos a partir da arte. É só clicar aqui. Depois, vamos para o 3° Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbu, que vai ocorrer entre os dias 21a 30 de outubro, e muitos outros estão em agendamento.

perifericu - Reprodução  - Reprodução
Perifericu na mostra Mov.Cidade até domingo, 11/10
Imagem: Reprodução

Gosto de dizer que a gente faz cinema para contar a nossa versão das nossas histórias. A gente faz cinema para possibilitar imaginários para os nossos. E o nosso cinema é outro, é comunitário, independente, pretx, LGBT, periférico... Então, ao escrever sobre o filme não falo só por mim. Falo de todo o nosso direito de existir.

Bastidores do curta PERIFERICU - Divulgação - Divulgação
Bastidores do curta Perifericu: filme premiado foi produzido de forma comunitária pelo coletivo Maloka Filmes com uma equipe preta, lgbt, trans e periférica
Imagem: Divulgação

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Blog Mulherias