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"Não quero que outras meninas passem pelo que passei", diz ex-atriz pornô

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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista do UOL

21/10/2020 04h00

Com 22 milhões de visualizações no XVideos, que funciona como um YouTube adulto, Emi Rippi é uma das atrizes mais buscadas na plataforma - está entre as cem mais vistas do Brasil.

O sucesso na indústria pornô chegou rápido para Emi: em apenas um ano e meio. Tempo que foi suficiente para que ela conhecesse alguns detalhes obscuros do meio e decidisse desistir. "Todo ator e toda atriz pornô já passou por alguma situação desconfortável. Quem diz que nunca, está mentindo. É um mundo competitivo", entrega.

Tratamento diferenciado e abusos

Entre os problemas citados por ela estão abusos físicos cometidos por atores durante as gravações, descumprimento do roteiro e de acordos previamente estabelecidos, até discrepância entre o tratamento dado a homens e mulheres nos sets de filmagem. "Acordei com o tempo. Não vou me calar mais. Amadureci. Não posso ter medo de determinadas pessoas."

A ex-atriz pornô relata que é comum que, em troca de visibilidade, os aspirantes trabalhem de graça para grandes produtoras. "Isso me ajudou, mas, se colocar na balança, não compensou", avalia Emi.

Cachês com ou sem camisinha

personagem 3 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Ela conta que, quando pagos, os cachês por filme variam de R$ 300 (para homens) a R$ 700 (para mulheres). "Costumam pagar mais caro quando é sem camisinha. Com camisinha, R$ 700. Sem camisinha, R$ 850."

Com 88 mil fãs no Twitter e no Instagram, Emi agora monetiza sua popularidade trabalhando como camgirl no Câmera Privê e fazendo videochamadas pelo Whatsapp. "Eu gosto de trabalhar com conteúdos no geral, não gosto de ter rotina."

"Com o Câmera Privê, gosto de trabalhar com metas. Pelo menos fazer R$ 100 ou R$ 150 por dia. Como eu tenho dreads naturais, tenho um público que fica mais das 6h ao meio-dia. À noite já não entra muita gente na minha sala. Tem meninas que têm outro estilo e pra elas 'bomba' à meia noite. Já o XVideos, funciona como o YouTube, paga as visualizações em dólar. Dá pra tirar muito dinheiro por lá, tipo R$ 5.000 reais por mês", revela.

Em nova fase, investindo na carreira de youtuber, ela produz vídeos contando detalhes sobre a breve carreira na indústria pornô e dando dicas sobre a profissão: "Não quero que as meninas que entrem passem pelo que eu passei. É muito doloroso", desabafa.

"Pornô não foi última opção"

personagem 4 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Emi Rippi é o nome artístico de Emília Elias de Figueiredo, de 25 anos. "O 'Rippi' veio da Gabriela Rippi, sempre gostei muito do estilo dela", explica, sobre a inspiração na youtuber.

"Ser atriz pornô, camgirl, sex worker não é uma última opção, pelo contrário, foi uma escolha de vida", conta Emi, que é formada em Logística. "Trabalhei durante quatro anos como analista de custos em uma empresa em São Paulo. Sofri muito assédio moral lá. Eles tacavam bombinha no meu monitor, pregavam peças em mim, o chefe chegava a colocar a mão no meu ombro apertando forte. E descobri que eu ganhava menos que um colega que desempenhava a mesma função."

"Foi algo muito doloroso até que um dia, ao entrar na empresa, tive uma crise de choro terrível e desmaiei. Tudo isso desencadeou um quadro grave de depressão. Fiquei mal por muito tempo, tive que ser internada. Quando saí, me vi perdida, sem saber o que fazer", relata.

Emi, que acompanhava o trabalho de algumas sex workers pela internet, disse que a autoestima e o empoderamento que as profissionais transmitiam fizeram com que ela vislumbrasse uma oportunidade nesse segmento. "Minha autoestima aumentou demais! Comecei a reparar em traços meus que outras pessoas gostavam e isso aumentou o meu desejo de viver. Aquela coisa de ver a vida colorida voltou. Comecei com o Câmera Privê e surgiu o convite pra fazer o primeiro filme pornô."

À noite, sex worker; de dia, princesa

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Imagem: Arquivo Pessoal

Na mesma época, Emi conciliava o novo trabalho com o de artista de rua. "Acordava, me fantasiava de princesa, pegava um ônibus, ia pro centro de São Bernardo, pra Praça da Matriz, e ficava de estátua viva. Foi delicioso. Eu fazia porque realmente gostava, não tava ali pra fazer dinheiro", diz ela, que por até 4 horas de trabalho ganhava entre R$ 100 e R$ 200 de caixinha.

"Quando entrei no Câmera Privê, lembro da conversa que tive com meu pai, fico até emocionada", diz, com a voz embargada. "'Pai, eu tô tirando a roupa na internet e tô ganhando dinheiro. Mas eu tô feliz, tá tudo bem'. E ele: 'Tá ótimo. Vamos manter melhor o corpo, então, vamos fazer caminhadas com o pai'", recorda. "Tive muito apoio do meu pai e da minha mãe."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL