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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Já é cringe falar cringe": quanto tempo dura um conflito entre gerações?

Cantora Olivia Rodrigo tem18 anos e é um ícone da geração Z - Reprodução/Instagram/@oliviarodrigo
Cantora Olivia Rodrigo tem18 anos e é um ícone da geração Z Imagem: Reprodução/Instagram/@oliviarodrigo
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

07/07/2021 04h00

Se você tava no Brasil nas duas últimas semanas, já se ligou no que é cringe, já que a internet e os grandes meios de comunicação foram tomados de assalto pelo termo.

Mesmo assim, acho muito chato começar um assunto sem mais nem menos e desconsiderar o fato de que, sim, talvez tenha gente aqui que ainda não saiba o que cringe ("Tu tava fora do Brasil, irmão?" — beijo pro pessoal do Podcast "Medo e Delírio em Brasília!").

Para trocar em miúdos, "cringe" é uma expressão em inglês que, aqui en Brasil, se assumiu como "vergonha alheia". Tá, e daí? Daí que duas facções de jovens resolveram se enfrentar. De um lado, os jovens muito jovens, super espertos, com a pretensão de deter todos os gostos e sabedorias superiores: a geração Z. Não se liga nessas letras associadas às gerações? Basicamente, trata-se daquele pessoal que nasceu da segunda metade dos anos 90 até o inicio da década de 2010. Do outro lado, os millennials, a tal da geração Y, que são os que nasceram entre 1982 e 1994.

Aí que os não-cringes resolveram apontar as cringices dos "mais velhos". Mais ou menos o que a geração Y fez com a geração anterior, classificando-a como "tiozinho da Sukita". Esses deliciosos conflitos de gerações, que estão aí desde que o mundo é mundo e movem as pequenas transformações sociais.

São elas (imagina se eles me pegam falando assim?), entre outros:

  • Usar calça skinny (aquelas bem apertadinhas do começo ao fim);
  • Tomar cerveja de litrão;
  • Tomar café da manhã (Hmm, curioso. Deve ter relação com o fato de que eles acordam na hora do almoço... Que fofos);
  • "Rir nas mensagens" usando coisas como emojis ou mesmo "HAHAHAHA". O "rs" também é considerado altamente cafona, ops, altamente cringe;
  • Usar o cabelo repartido para um dos lados (daquele jeitinho que a cabeça até pende junto, para insinuar um certo charme, uma tal elegância...);
  • falar em boleto. Bom, nesse aspecto preciso concordar, acho boleto um saco! Por mim, queimaríamos todos os boletos em praça pública. Depois faríamos um carnavalzão fora de época, derrubaríamos os bancos e pronto - criaríamos um novo sistema. Mas imagino que nossos amiguinhos estavam se referindo ao excesso de uso do termo "boleto". Olha, botinhos, também acho uó, tô com vocês. Mas daí, né, mores, é como qualquer outro modismo instantâneo dos "nossos tempos": "não tenho nem roupa pAra ir", "cristal de sabedoria"... Podem me ajudar com outros aqui
  • Não entender ou gostar de vídeos do TikTok... (agora eu posso dormir? Tô louca pra acordar amanhã e tomar um litrão de café!).

E isso tudo me fez pensar nas maquiagens, no que foi moda e passou a ser brega. Quando eu ainda não era tão cringe assim, lá pros anos de 2002, os itens campeões de make eram: pó, lápis preto, máscara de cílios, pó bronzeador e gloss.

Daí para frente, vi tanta coisa... Para ficar só na esfera da base, tem uma linha do tempo mais ou menos assim: base sendo rechaçada como item proibido, porque "entope os poros"; base sendo derramada pela cara, praticamente como uma graça alcançada; baking, combinação de litrão de base, uns kilos de pó, tudo bem seladinho. Também temos "pele de rica", a expressão mais cafona e elitista dos últimos anos; glass skin, que lembram daquele efeito "boca de quem comeu coxinha", mas na cara toda. E as coisas vão mudando, mudando e mudando.

Hoje em dia, fico aqui vendo os muitos vídeos que os ultra-mega-jovens-Z's postam. Uma coisarada que pega todas essas referências e tendências, enfia num rolo compressor e bota tudo em um vídeo de 15 segundos. Algo impressionante! Quanto tempo até isso virar cringe? Ou ser julgado a partir de outro termo criado por outras gerações?

Eu sempre me pego aqui, com minha cara de tiazona, tomando café de olho apertado, sentindo uma certa desconfiança, uma espécie de tranquilidade irônica. Imagina quando os boletos deles começarem a chegar? Como é que vão se comunicar com os bancos, se nem vogais usam? A gente nem entende o que eles falam — é um misto de gíria, falta de vogal e digitalização humana. Fico aqui no aguardo dos próximos episódios desse conflito de gerações.

Inclusive, se você tiver morrendo de curiosidade para saber se é ou não cringe, se joga nesse teste aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL