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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Competência se paga com tarefas? A cilada do trabalho extra sem aumento

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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

30/06/2021 04h00

Você está arrasando tanto no seu trabalho, que seu chefe não se cansa de lhe dar mais tarefas e projetos. Ou seja, camarada, você está trabalhando a mais.

"Dona Maria, você é tão eficiente, tão competente. Portanto, nós da diretoria, decidimos lhe deixar encarregada de mais esse importante projeto". Dona Maria fica contente, se sente valorizada. "Nossa, como confiam em mim, me deram esse projeto grande e fora da minha área", pensa.

Seu Rodrigo, coleguinha de trabalho de Dona Maria, começa a ficar enciumado — "aquela lá não sai mais da sala da chefia". Dona Maria está que não se aguenta de orgulho. Às sextas-feiras, quer dizer, na Casual Friday, Dona Maria vai orgulhosa com seu bom par de jeans, camisa social (para imprimir seriedade) e com máscara anti-covid com o logo da empresa.

Em pouco tempo, Dona Maria se tornou um exemplo de colaborador. Colaborador? Ah, sim, claro, ser chamado de funcionário pode colocar as pessoas para baixo; pode até parecer que você é uma espécie de proletário. E claro que você está bem longe disso.

Enquanto como colaborador, parece que você de fato faz parte daquilo tudo, é "quase um acionista". Você faz parte da Família (insira aqui no nome da empresa). Participa da tomada de decisões e do planejamento estratégico. Ah, não participa? Hmm... Estranho.

Com tanto trabalho extra, Dona Maria precisou trabalhar horas a mais. Tudo bem, ela ganha horas-extras pelo trabalho a mais. Ah, não ganha? Claro que não, tolinha. Dona Maria agora tem cargo de confiança. Ela já não tem mais banco de horas. Ah, que ótimo! Então ela ganha 40% a mais no salário mensalmente. Não ganha? Hmm, que Estranho.

Outro dia, Seu Rodrigo tava trocando uma ideia na copa com Dona Juliana, naquele feliz e necessário momento do cafezinho: "Juliana, viu como Dona Maria anda estressada? Mal sai para comer, chega todo dia às oito da manhã e vai embora às oito da noite. A bolsinha de remédio está explodindo. Vive medicada. Diz que a chefe manda mensagem e e-mail nos horários mais inóspitos. Fim de semana não existe mais. Parece que até nas férias ela responde mensagem, atende ligações e participa de reuniões".

Dona Juliana emenda: "Eita, então ela nunca para de trabalhar!"
"Aparentemente, não", rebate Rodrigo.
"Ah, mas ela foi promovida, né?", replica Juliana.
"Garota, não foi, não. Parece que nem aumento recebeu", encerra Rodrigo.

Semana passada, Dona Maria não apareceu. Foi tudo meio misterioso... O pessoal do RH na sala da chefia. Conversaram, franziram cenhos, apoiaram as cabeças na mãos. Depois de cinco minutos, mudaram para outro assunto. Discutiam, com os olhos vidrados em um powerpoint, sobre uma das campanhas da empresa.

As pessoas do departamento foram orientadas a não procurar Dona Maria. Parece que teve uma espécie de esgotamento físico e mental. Nem falando está... A rádio peão murmurava a tal expressão burnout aqui e ali. Dona Maria não voltou a trabalhar. Foi afastada, primeiro pela empresa, depois "entrou na Caixa". Um colega, que viu Dona Maria, diz que ela ainda não consegue trabalhar. Sente medo, o coração dispara, falta-lhe ar. Até mesmo conversar custa muito.

Abram os olhos, manas e manos. A insana ansiedade, produto do ambiente competitivo, estressante e perverso da Firma (disfarçado de família, que, aliás, também pode ser perversa...), é repassada com juros e correção monetária para sua vida pessoal. Pode roubar tua saúde e tua alma.

Não acredite no hype dessa vida de workaholic, não! Ou melhor, acredite, desde que ele venha coroado pelos louros e cifras que a sociedade capitalista exige: capital, grana, capim, bufunfa, cascalho.

Agora, se ele vier empacotado com essa história de que você é tão foda que vão te dar mais esse Lego pra montar, mais esse "projetinho" para tocar, sem que você tenha competência nem grana a mais pra isso (afinal, se você é tão fod*, nada mais justo que ser recompensado pela produção extra). Agradeça a confiança e a lembrança, use seu tempo com você e sua família, com seus dates, seus amigos. Use para fazer um curso, contemplar, pensar ou até mesmo pra fazer nada.

Sei que esse é um conselho infame na Sociedade do Cansaço, por mais irônico que isso possa parecer — aliás, cata esse livrinho para ler - "A Sociedade do Cansaço", de Byung-Chul Han. Pode ajudar a clarear umas ideias (ou não). Depois, já emenda com esse conteúdo aqui.

Para finalizar, saindo um pouquinho do lance do seu valor como mercadoria e da grana. Não seria bom também ter uma vida fora do trabalho? Não seria legal ter um trabalho que te permita desligar e viver de boa, relaxar? Ter tempo para sacar os outros ao seu redor. Estar presente, com inteireza nas relações e situações, com alguma leveza, com interesse e cabeça fresca. Cabeça fresca, brilho no olhar... Bem a antítese daquele zumbi zoado no qual querem te transformar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL