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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Depois do BBB, será que vamos caçar uma tendência de beleza em "No Limite"?

"Piercing fake" de Juliette é um dos itens mais procurados do acervo da paraibana no "BBB" - Reprodução/Instagram
'Piercing fake' de Juliette é um dos itens mais procurados do acervo da paraibana no 'BBB' Imagem: Reprodução/Instagram
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

03/05/2021 04h00

O que devemos esperar da beleza do reality show "No Limite" (Globo)? Beleza e moda se tornaram assuntos tão presentes e obrigatórios que imagino que, mesmo em um programa que se passa no meio da mata e com escassez de recursos, dar-se-á um jeito de isso virar assunto.

Foi muito instigante ver a profusão de publicidade no BBB21. Diariamente, o programa era envelopado com alguma marca em provas e festas com cenários grandiosos, quase que como um universo à parte. Teve até vegano tentando pedir lanche de uma gigante de fast-food, tamanha a intensidade e presença da peça publicitária. Eu mesma, que não sou a louca deste tipo de comida, confesso que tentei pedir um "número". Sem sucesso, já que os canais de delivery estavam sobrecarregados e não aceitavam mais pedidos, atestando o sucesso da ação.

Memes e vídeos surgiram sobre os merchans e adivinhem? Todos acabaram divulgando "o assunto" gratuitamente! Seria o paraíso da publicidade? Produtores de conteúdo, que costumam cobrar por essas ações, se puseram à serviço da graça e da causa, assim, "naturalmente".

Eita! Mais uma vez fiz isso... Caí na associação livre aqui com vocês... Queria falar da beleza e acabei entrando no lance de como somos permeáveis. Mas tem a ver. Venha comigo!

Vamos voltar para a beleza. A aparição na TV sempre foi cercada de um ritual. Antes de entrar no estúdio, de se colocar à disposição das câmeras, você deve passar por um camarim. Ele é uma espécie de sala de bênçãos, onde tudo em você será tocado, aperfeiçoado. Figurino, cabelo, maquiagem, unhas. Cada detalhe da sua aparência será cuidadosamente revisto para essa entrega aos holofotes. Nada ali é real, natural. Tudo passa pelo escrutínio da perfeição. Há uma equipe atenta por trás das câmeras, pronta para intervir toda vez que algo "sair do lugar". É necessário muito trabalho e um time grande para a manutenção do perfeito, do padrão que será propagado e consumido por milhões de telespectadores.

Nos realities, a ideia inicial era bem outra. Afinal, são realities — logo, realidades. Ou ao menos deveriam ser. É possível dormir e acordar com aquela gente, se você tiver disposição e pay-per-view. Você se sente próximo e se sente bem, porque rola essa identificação do "olha, mesmo dentro dessa tela quadrada, essas pessoas estão acordando com sinais de realidade, de imperfeição, de vida humana". A gente chega a sentir o bafo e os odores de alguns deles.

No BBB21, claro que rolavam as "montações" para as festas e para os momentos "ao vivo", especialmente por termos uma influenciadora de beleza, uma maquiadora e artistas no elenco. Além, é claro, de um patrocinador principal da área da beleza à disposição. Nem pegaria bem ficar o tempo todo de cara lavada.

Entretanto, em muitos momentos, rolava uma emulação da vida real. A gente conseguia ver uma olheira aqui outra ali, e espinhas e poros, tão comuns no nosso dia a dia, deram o ar da graça em rede nacional

Como será isso no programa selvagem que vem aí, sem cama, mesa e banho? Para onde vamos olhar? O que vai sobrar para o universo da beleza? Nós, que temos essa obsessão de falar e olhar para o exterior. Provavelmente, serão os corpos. Talvez, neste cenário, do mínimo necessário em termos de produtos e acessórios, se torne interessante.

Aí a onda do skinimalism já dá as mãos com os participantes e teremos assunto, campo para pensar nas reais necessidades de beleza e bem-estar. De quanto precisamos e se de fato precisamos. Quiçá a gente poderá verdadeiramente falar e debater sobre equilíbrio e vida saudável.

Obviamente, isso poderá se transformar em peças de marketing. Alguém vai dar um jeito de ganhar dinheiro com isso, vendendo algum produto que é tão, mas tão necessário, que até quem está caçando calango e comendo olho de cabra vai precisar. Es lo que hay no sistema que vivemos. As pautas rolarão. Cabe a nós pegarmos o que daquilo nos serve e o que precisamos comprar. Claro que estou falando aqui para quem assiste ou vai assistir. Poupe seus comentários sobre a futilidade do modelo reality show, se você não assiste. É desnecessário.

Fazendo a ponte das telas para vida real: sair sem nada, ou melhor, apenas com o básico necessário, como nosso protetor solar de cada dia, pode ser um excelente exercício de libertação. Vamos ver aonde o limite nos levará.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL