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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tendência pra quem? Há toda uma vida fora da sua bolha de makes conceituais

A cantora Rihanna acompanha a tendência do rosto todo maquiado - Getty Images
A cantora Rihanna acompanha a tendência do rosto todo maquiado Imagem: Getty Images
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

27/03/2021 04h00

Vamos falar de assunto que sempre gera muita comoção e interesse: as tendências.

Ah, as tendências de make... quantas e quantas vezes fui/sou perguntada sobre quais são as próximas tendências de maquiagem. Quais foram as tendências de make dos últimos cinco anos? Quais são as tendências de make para os próximos dez anos? O que esperar de tendência no pós-pandemia?

Recentemente, a "Glamour" britânica postou um vídeo ótimo sobre o assunto:

Como vocês podem ver, trata-se de um comparativo entre a maquiagem usada e propagada em 2016 e a de 2021, com um certo destaque para as sobrancelhas.

Bem diferente, né? Tanto a quantidade de produto, quanto as técnicas de aplicação e, obviamente, a estética resultante de cada um dos looks. Quando vejo isso, fico pensando que, em 2016, eu já tava maquiando para desfiles nas semanas de moda de São Paulo, Rio, NY, Londres, Milão e Paris há muito tempo.

E, naquela época, essa opção de look 2016, com mais produtos e coisas rolando, não era nem de longe a escolha das passarelas. Já era tudo sobre a pele natural e sobrancelhas penteadas no tal "up and out" — para cima e para fora, que hoje em dia recebem a alcunha de "laminated eyebrows".

Lembro claramente das reações de algumas pessoas às fotos postadas na minha conta do Instagram e na da marca para qual eu trabalhava: "que coisa pavorosa", "nossa, não tinha maquiador lá?", "Meu Deus, por que não fizeram a sobrancelha da modelo?" e por aí vai...

Naquela altura, o Instagram tava bombando com as makes superelaboradas que tantas vezes falamos aqui. Tutoriais e mais tutoriais pipocavam ali e no YouTube, ensinando técnicas complexas para alcançar não apenas a tal sobrancelha blocada, mas também o look "full makeup on" — com a cara toda bem maquiadona.

Na sociedade atual, o trabalho tem papel preponderante em nossas vidas. Então, acho normal que a gente viva meio imbuídos dessa atmosfera e com os elementos do nosso trabalho sempre permeando tudo. O olhar e o pensamento ficam meio condicionados ao que nos cerca, e a gente acaba vendo o mundo com essa espécie de lente particular. Tento estar atenta a esse "detalhe" e olhar a beleza com olhos frescos, como se eu não trabalhasse com isso todo santo dia.

Digressãozinha posta, vamos voltar lá para 2016, no dia seguinte a um desfile de moda desses que eu comentei.

Onde quer que estivesse — avião, busão, farmácia, mercado, escola, restaurante, vendinha, ruas, enfim, vivendo a vida em si — começava a botar reparo nas sobrancelhas das mulheres. Humm... parecia tudo meio normal. Algumas naturais, algumas claramente nunca tinham visto uma pinça, outras organizadas e penteadas, algumas poucas mais pintadas. Raras, raríssimas vezes, era possível ver sobrancelhas copiadas e coladas das passarelas ou do Instagram ali no contexto da vida real.

E é aqui que penso na minha mãe, nas minhas tias e nas amigas delas — literalmente cagando para as tendências. De vez em quando, até me pedem um "lapizinho" para dar uma realçada na cor já meio apagada, mas nada muito dramático, radical ou transformador.

Aí você me diz: "Ah, mas aqui no bairro Dona Esther sempre aparece com a sobrancelha bem preta! Parece tingida com carvão". Sim, sim, mas Dona Esther faz assim há anos, não só agora, porque a influenciadora disse.

Onde você está indo com essa conversa, garota? Tô querendo dizer que, até bem pouco tempo atrás, essas tendências todas de make, sejam as das passarelas, das celebridades ou do Instagram, normalmente ficavam restritas a esses universos. Provavelmente, o apelo e impacto delas estava no público jovem ou dentro do próprio rol de pessoas que trabalham com beleza, moda e entretenimento.

Do outro lado dessa estrada, havia toda uma legião de pessoas lá na vida real que não estavam nem aí para essa ou aquela tendência. Uma renca de mulheres que só tava querendo aprender a dar um tapinha no visual, sem grandes malabarismos e sem tanto mise-en-scène.

Tô usando o tempo pretérito nas sentenças, porque eu desconfio (só desconfio) que, com celular em mãos, hoje em dia, mais do que nunca, o número de pessoas afetadas pelo que as tendências ditam (ainda que acreditem no contrário), cresce gradativamente. E o mercado vê e investe pesado nisso. Basta dar um pulo ali no reality show mais bombado do momento.

No entanto, ainda vejo e acredito que há toda essa galera esquecida pela indústria da beleza. São aqueles que buscam o mínimo, o simples.

Gente que pensa "Ah, queria só me organizar aqui, trazer um pouco de magia para a aparência", "Não tô a fim de gastar nem tempo nem tutano com tanta coisa", "Quando eu for dar um close, talvez queira aprender um delineado mais avançado ou técnicas mais desafiadoras, mas, ainda assim, quero poder me reconhecer com maquiagem". Há muito espaço para observar, aprender e explorar.

Pensando na vida, no dia a dia, muita, mas muita gente ignora solenemente todas essas polêmicas sobre tendências e "make isso, make aquilo". Muita gente só tá interessada em maquiagem utilitária, e não em show de make. Como elas se encaixam nas tais tendências?

Por isso eu digo, habitante da Belezalândia: acredite, tem toda uma vida acontecendo fora da sua bolha de make.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL