PUBLICIDADE

Topo

Débora Miranda

Parem de comparar mulher e futebol!

Renato Gaúcho, técnico do Grêmio - Marcello Zambrana/Marcello Zambrana/AGIF
Renato Gaúcho, técnico do Grêmio Imagem: Marcello Zambrana/Marcello Zambrana/AGIF
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

17/01/2021 04h00

Primeiro é importante dizer: eu amo o futebol. Eu acredito profundamente no papel social e político do esporte, como agente transformador e espaço democrático. Mas é óbvio que, como quase tudo que tenha sido conduzido, vivido e liderado por homens —predominantemente e historicamente— o esporte ganhou contornos machistas.

Algumas coisas são superficiais, mas muitas estruturais. E essas são justamente as mais difíceis de serem desconstruídas e desnaturalizadas. A luta de todas nós, que adoramos o futebol (e o esporte de forma geral), é justamente essa, para que possamos também participar de sua condução, de sua vivência e de sua liderança.

Dito isso, venho hoje chamar a atenção para algo que parece inofensivo, mas é profundamente desrespeitoso e machista: usar metáforas que envolvem mulheres para explicar situações do futebol.

Renato Gaúcho, técnico do Grêmio, é craque nisso. Ele fez barulho nos últimos dias do ano passado ao comparar a posse de bola de um jogo a pagar jantar para uma mulher e não levá-la para o motel. A discussão era sobre o maior domínio do São Paulo em partida contra o Grêmio —que, no entanto, garantiu a vaga na final da Copa do Brasil.

"Vou te contar uma historinha sobre posse de bola. Teve um cara que pegou uma mulher bonita e levou ela para jantar. Levou para jantar a luz de velas, conversou bastante. Saiu do restaurante, foi na boate e ficou até as 5h da manhã com ela. Gastou uma saliva monstruosa. Aí, na boate, chegou um amigo meu, conversou com ela 15 minutos e levou ela para o motel. Entendeu? Se não entendeu outra hora eu explico. Meu amigo ganhou o jogo", afirmou.

Muita gente vibrou com a análise do técnico, achou graça, mesmo. Comemorou a existência, no futebol brasileiro, de uma figura irreverente como Renato. E é a isso que me refiro quando falo do machismo estrutural.

"Meu amigo ganhou o jogo." A conquista de uma mulher vista como um jogo —e a intenção de levá-la ao motel como sendo a vitória nesse jogo. Acostumados a um tipo de comportamento, a um tipo de tratamento com relação às mulheres, a um olhar que objetifica e sexualiza, muitos homens ainda não são capazes de enxergar que a tal irreverência que eles celebram tanto nada mais é do que machismo puro e simples.

Renato Gaúcho, inclusive, já fez diversas dessas comparações. Em 2019, para criticar a defesa de seu time em um jogo da Libertadores, afirmou: "Até uma mulher grávida faria gol no Grêmio", usando mais uma vez a mulher como medida de comparação para definir o que ele considerou a fraqueza da equipe.

No último fim de semana, o comentarista Maurício Noriega, da SporTV, fez uma colocação bem menos agressiva, mas igualmente infeliz. Comparou o Campeonato Brasileiro a um baile em que uma moça, por ser muito desejada, acaba ficando sem parceiro, já que os candidatos ficam envergonhados de chamá-la para dançar.

"Eu sou do interior e lá tem baile nos clubes. E nos bailes, às vezes tem uma moça que é tão bonita, tão bonita, que ninguém chama para dançar e ela acaba indo embora sozinha. Este é o Campeonato Brasileiro", disse Noriega em participação no programa "Troca de Passes".

Para além do fato de se tratar de uma comparação que mal faz sentido, o que importa aqui é: de novo, objetificar a mulher para relacioná-la ao futebol de forma a ilustrar um ponto de vista.

"Nossa, mas o mundo está chato. Não se pode fazer nada. Ele até disse que a mulher é bonita", dirão muitos. Sim, o mundo está chato e vai ficar mais chato ainda enquanto os homens não entenderem que o papel da mulher no futebol pode ser muitos —no jornalismo esportivo, na diretoria de clubes, como técnicas, torcedoras, narradoras, árbitras, atletas. Mas não servir como régua de comparação para explicar teorias machistas.

Veja também: