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Débora Miranda

Maradona morreu e sua ex pode ser responsabilizada? A família acha que sim

Maradona e Rocío Oliva  - Reprodução/Instagram
Maradona e Rocío Oliva Imagem: Reprodução/Instagram
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

29/11/2020 04h00

Além de inúmeras homenagens e muita comoção, a morte de Diego Maradona, na semana passada, escancarou os problemas familiares e as desavenças entre ex-mulheres e filhas do ex-jogador. No dia do velório, Rocío Oliva, sua última companheira, com quem esteve por seis anos, foi impedida pela família de participar da cerimônia íntima de adeus ao craque.

Embora tivesse sido avisada de que não poderia entrar, Rocío foi até a Casa Rosada, sede do governo argentino em Buenos Aires, onde a despedida estava acontecendo. Ela insistiu, e seguranças impediram sua passagem.

Os argumentos da família escancararam não apenas uma lamentável rivalidade entre mulheres, mas também uma tentativa de responsabilizar Rocío por uma tristeza que poderia ter acometido o último período de vida de Maradona e inclusive ter prejudicado seu estado de saúde.

Foi pedido que Rocío fosse ver Maradona em vida, ele estava muito deprimido e quis vê-la em seus 60 anos [completos em 30 de outubro], mas ela disse que não. Muitos a responsabilizam pela tristeza e pela depressão que ele estava enfrentando. Ele a amava. Entendo que ela se separou dele, mas também se negou a vê-lo quando pediram. Ele necessitava, e ela não foi - afirmou em um programa da TV argentina a jornalista Yanina Latorre.

Rocío teve um relacionamento de seis anos com Maradona, de quem se separou em 2018. Passaram —como foi comum ao longo da vida do ex-jogador— por altos e baixos. Muitas situações extremamente delicadas. Em 2014, vazou um vídeo em que Maradona supostamente agredia a namorada. Houve também, enquanto os dois estavam juntos, denúncias de brigas com gritos e agressões verbais.

Quando se separaram, segundo a imprensa argentina, a decisão de Rocío era manter distância de Maradona. Ela chegou a falar publicamente dos problemas que ele vinha enfrentando com o álcool —mas, apesar disso, negou publicamente casos de violência e elogiou o craque repetidas vezes.

É natural que uma mulher, quando finalmente consegue sair de uma relação abusiva —tenha ela envolvido agressões físicas ou não—, queira se preservar e manter distância do ex-companheiro. Inclusive é o esperado. E o mais saudável para ambas as partes.

Culpá-la pela tristeza e pela depressão que o ex-jogador vinha enfrentado é injusto. Além de machista. A depressão é um distúrbio psiquiátrico sério, que precisa de tratamento apropriado e acompanhamento. Não é responsabilidade de ninguém. Nem do doente nem de alguém que pode tê-lo entristecido em algum momento da vida.

Rocío ainda afirmou que tentou ver Maradona em seu aniversário de 60 anos, pois teria ficado sabendo do pedido do ex-jogador.

Diego queria me ver, muita gente que estava a lado dele me disse. Eu não falava com ele. Mas queria [encontrá-lo]. Me pus à disposição quando vi que estava mal em seu aniversário. Insisti, me cansei de dizer - afirmou, segundo o "Clarín".

Maradona e suas filhas Dalma (à esq.) e Giannina - AFP - AFP
Maradona e suas filhas Dalma (à esq.) e Giannina
Imagem: AFP

Quem aparentemente organizou e tomou as rédeas do velório de Maradona foi Claudia Villafañe, uma de suas ex-mulheres, e as filhas dela com Maradona, Dalma e Giannina. Ainda de acordo com a imprensa argentina, outro argumento usado pelo trio a fim de justificar a decisão de barrar Rocío foi de que ela apareceu chorando na TV antes de ir ao velório. Ela participa de um programa esportivo na televisão e, segundo versões, os familiares teriam se irritado por ela não faltar ao trabalho no dia da morte do craque.

Dalma e Giannina já atacaram a namorada do pai diversas vezes e a responsabilizaram pelo estado debilitado que ele apareceu em algumas festas, enquanto os dois estavam juntos. Maradona chegou a gravar um vídeo em que ameaçava não deixar herança para as duas filhas depois das declarações.

A vida familiar de Maradona sempre foi tumultuada, e a relação com Claudia e as filhas não fica fora disso. Reportagem recente do "Clarín", publicada em 14 de junho deste ano, tratava de uma discórdia entre as três e o advogado e amigo de longa data do craque, Matías Morla. Diego, na ocasião, saiu em defesa do amigo.

"Matías me salvou. Me salvou a vida em todos os sentidos. Eu estava arruinado quando começamos a trabalhar juntos. Ninguém queria me contratar." Ele ainda afirmou: "Tenho outros filhos, e eles se dão bem com Matías. O que acontece é que as meninas decidiram estar com a mãe, e Matías é quem me defende de Claudia. Elas precisam entender que ele está me defendendo de quem me roubou".

Fato é que Maradona tinha problemas pessoais aos montes, e todos que fizeram parte de sua vida acabaram envolvidos --direta ou indiretamente. E todos os envolvidos têm sua versão dos fatos. Inevitável. Não cabe aqui tomar partido. Apesar de os problemas terem, ao longo dos anos, tornado-se públicos, apenas quem viveu sabe de fato o que se passou.

Mas uma coisa é certa: discórdias à parte, a responsabilidade pela depressão e pela deterioração da saúde do argentino não pode recair sobre o comportamento de Rocío. Muito menos sua morte, por mais doída que seja.

Na mesma reportagem de junho, Diego fala com transparência sobre o então iminente aniversário e sua expectativa sobre o futuro, que infelizmente não chegou.

Vou fazer 60 anos, e a única coisa que quero é estar tranquilo, feliz e com trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL