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Débora Miranda

Campeã de xadrez elogia 'Gambito da Rainha' e quer mais mulheres no esporte

A enxadrista Juliana Terao - Leo Mano/Divulgação
A enxadrista Juliana Terao Imagem: Leo Mano/Divulgação
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

15/11/2020 04h00

Catorze homens para uma mulher. Essa é a disparidade que ainda pode existir em um campeonato de xadrez, segundo Juliana Terao, 29 anos, seis vezes campeã brasileira feminina de mais de 20 campeã por modalidade (antes de entrar nas disputas adultas).

"A diferença entre a quantidade de homens e mulheres ainda é muito significativa. Há no máximo 30% de mulheres em um torneio, quando muito."

A esperança de que essa situação mude vem, hoje, de duas frentes. Uma delas é um grupo do qual Juliana faz parte desde 2018 chamado Damas em Ação, que tem como objetivo dar mais visibilidade ao xadrez no Brasil e atrair mais mulheres para o esporte. "O número de mulheres tem que ser igual ao de homens, pelo menos", acredita Juliana.

A outra fonte de mudanças pode ser "O Gambito da Rainha", série que estreou recentemente na Netflix e que tem feito sucesso com a história de uma enxadrista, Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy), nos EUA dos anos 1950 e 1960. Após ser abandonada pelo pai e perder a mãe em um acidente de carro, ela vai viver em um orfanato onde aprende a jogar xadrez. E descobre ter o dom para para o esporte.

A atriz  Anya Taylor-Joy interpreta uma enxadrista em "O Gambito da Rainha" - Divulgação/ Netflix - Divulgação/ Netflix
A atriz Anya Taylor-Joy interpreta uma enxadrista em "O Gambito da Rainha"
Imagem: Divulgação/ Netflix

"Quando você faz um conteúdo voltado para qualquer tipo de minoria, está fazendo um grande favor. Às vezes, basta a ideia para mais meninas se questionarem: 'Por que não? Por que também não posso ser tão boa quanto um rapaz?'", diz Juliana.

Ela ainda destaca que o timing de exibição do programa foi ótimo, pois o xadrez teve um crescimento grande durante a pandemia —especialmente porque pode ser jogado em versões on-line. "O xadrez é um dos esportes mais praticados do mundo", lembra ela.

Esmurrar a porta do elevador

Segundo Juliana, o machismo ainda existe no xadrez, mas vem melhorando.

"Já escutei muita piadinha. Além de ser mulher, eu sou pequena. Já vi homem cutucando o amigo e perguntando: 'Você perdeu para essa menininha? Essa criancinha?"

Ela se lembra de outro episódio em que venceu a partida, e o adversário empurrou a mesa, fazendo com que as peças do jogo caíssem no chão. "E teve um que era mestre e, quando eu ganhei, saiu esmurrando a porta do elevador. Nem me cumprimentou. Mas hoje em dia está melhor, são poucos os que ainda são machistas."

Os campeonatos têm a modalidade absoluta e feminina. A primeira é mista, aceita ambos os gêneros e qualquer pessoa pode participar. Já a segunda, naturalmente, é exclusiva para as mulheres. Não há categoria masculina. Mas os prêmios da absoluta são muito mais altos do que os prêmios da feminina. Às vezes o quádruplo.

Ainda assim, Juliana explica que a categoria feminina foi criada justamente para atrair mais mulheres ao esporte. "O xadrez é um esporte para todos. Mas a disparidade entre a quantidade de homens e mulheres ainda é muito grande. É importante mostrar que a mulher também pode."

Ela diz que as categorias de idade entre cinco e dez anos, em média, têm maior equilíbrio entre os gêneros. Mas, depois disso, a domínio é masculino. "Acho que é uma questão cultural. Os homens tendem a ser focados em uma coisa só. A mulher tem muitas atividades, encontra outros interesses. Muitas famílias também não gostam que a filha participe. Tem que viajar muito para os torneios. Além disso, depois de adulta, a mulher começa a ter filho, aí muitas vezes não consegue continuar."

Juliana considera que a série foi "bem light" ao retratar o machismo e a discriminação com uma mulher enxadrista nos anos 1950 e 1960. "Ela é muito independente. Acho que teria sofrido mais preconceito, especialmente nessa época." No programa, Beth é sempre uma das únicas mulheres nos torneios de que participa.

Sempre Betty, a Feia

Uma das características da série que agradaram Juliana foi o gosto apurado de Harmon pela moda. Assim que começa a ganhar campeonatos e, consequentemente, a ter dinheiro, a protagonista de "O Gambito da Rainha" parte para as compras. Há cenas diversas em que sua paixão pela moda e pelas tendências de maquiagem são expostas.

"Eu gostei de ver isso na série, porque, normalmente, retratam a enxadrista como uma Betty, a Feia. Não é assim. Não é porque uma mulher gosta de um esporte que tem predominância masculina que precisa deixar a vaidade de lado. Eu sou muito vaidosa, me maquio, gosto de me vestir bem."

A atriz Anya Taylor-Joy - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
A atriz Anya Taylor-Joy
Imagem: Reprodução/Netflix

Ela também confirma que as diversas e frequentes viagens da protagonista para disputar torneios têm muito de real.

"A vida de um jogador de xadrez tem muitas viagens, sim. Esta fase de pandemia está sendo a primeira vez na vida que fico tanto tempo na minha cidade. Sempre viajo uma ou duas vezes por mês." Ela diz que o glamour retratado na série também é real nos torneios de elite mundial. "A maioria acontece em hotéis cinco estrelas, os jogadores ficam hospedados em locais muito bons."

O balanço final segundo a enxadrista é que a série é uma das melhores a que ela já assistiu sobre o esporte. "Eles tiveram entre seus consultores Garry Kasparov, ex-campeão mundial e um dos maiores enxadristas da história. Os atores soam muito natural, parecem mesmo jogadores pela forma como pegam nas peças, apertam o relógio, pela postura. Só a questão do olhar, que a atriz trabalha bastante, é diferente. Na vida real, são poucos os jogadores que ficam encarando o outro."

"Eu também queria ganhar troféu"

Juliana aprendeu a jogar xadrez com quatro anos, ensinada pelo pai. "Ele era um jogador entusiasta, gostava bastante." O irmão, um ano mais velho, começou a competir e a se dar bem. "Íamos toda a família para os torneios do meu irmão. Era muito chato para mim, como criança, não ter nada o que fazer. Então, meu pai acabou me ensinando."

Ela diz que a concorrência entre irmão bateu forte. Quem nunca? "Sou muito competitiva, e meu irmão começou a se destacar muito cedo, a ganhar troféu. Eu também queria ganhar troféu", lembra.

Hoje, o irmão de Juliana só joga por diversão e está terminando a faculdade de medicina. Ela, por sua vez, embora tenha interrompido a jornada de torneios para cursar duas faculdades, acabou voltando. "Sou formada em administração de empresas e em gestão de TI. Não gostei muito das áreas em que me formei. Bater ponto, estar no escritório todo dia no mesmo horário não me agrada. Prefiro a rotina de torneios", conta ela, que também dá aulas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL