Cristina Fibe

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Opinião

'Elis & Tom': narrativa sobre cantora é mais nociva do que IA em propaganda

"Olha a Elis aí: ela é um ananás (ou abacaxi-ornamental). Toda espetante, como a Elis era. E ao mesmo tempo deslumbrante. Da forma dela de espetar, de repente nasce a cor, a beleza. É um abacaxi, mas é um abacaxi vermelho, não o abacaxi da feira. Essa (bromélia) é a cara da Elis."

A declaração de Roberto Menescal, diretor artístico da gravadora Polygram em 1974, fecha o documentário "Elis & Tom", dirigido por Roberto de Oliveira e Jom Tob Azulay, em cartaz nos cinemas.

Num passeio por seu jardim, questionado sobre qual planta representaria cada uma das estrelas do disco lançado quase 50 anos antes, Menescal escolhe o abacaxi para simbolizar Elis.

E Tom Jobim?

"O Tom seria outra coisa", afirma Menescal, caminhando pelas bromélias: "Essa planta é única no mundo. Eu morro de medo de bater uma praga aqui. Eu acho que o Tom Jobim é único no mundo também."

Elis, espinhosa, embora bela e deslumbrante. Tom, figura rara e única no mundo.

Sem querer, Menescal resumiu uma visão que marca todo o filme. Com imagens até então inéditas da gravação do álbum que é considerado uma obra-prima da música brasileira, "Elis & Tom" sufoca a cantora com a misoginia que a cercava naqueles anos de glória.

A história é recontada por homens — o filme traz 12 entrevistados para 1 entrevistada, placar mais desequilibrado que o Supremo Tribunal Federal brasileiro.

Pela visão deles, ficamos sabendo que, apesar de talentosa, Elis não teve coragem de se jogar numa carreira internacional que a alçaria ao posto de uma das dez melhores cantoras do mundo — como se o título de maior cantora do Brasil fosse pouco.

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Diz o produtor musical André Midani (1932-2019), em entrevista para o filme: "Ela impediu esse projeto. Ela se negou a realizar esse projeto. Cheia de preconceitos, cheia de ideias tortas, e uma falta de visão do potencial da sua carreira".

O filme traz imagens de Elis em ao menos cinco países, além do Brasil.

Por sorte, ela estava cercada daqueles homens que salvaram sua trajetória. Midani, então gerente geral da Poylgram, convocou Oliveira para pensar um projeto que seria uma espécie de presente pelos dez anos de carreira da cantora.

O empresário propôs o nome de Tom Jobim para melhorar a imagem dela. A ideia era fazer um encontro "com alguém que pudesse lhe transferir um pouco de prestígio".

Os homens lembram das dificuldades que nasciam ali: "Elis não gostava do Tom", diz Midani.

Não é o que ouvimos da própria, em um recorte de 1971 que aparece na sequência. Ela chama o compositor de "uma pessoa realmente incrível". Mas o produtor insiste: "Ela não gostava do Tom porque tinha medo que ele a recusasse".

Ainda bem que Tom era generoso. Topou gravar o disco com Elis Regina, mas precisou receber também o marido dela, César Camargo Mariano, pianista e arranjador com quem o compositor teria desavenças ao longo do processo.

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Resolvidos os conflitos, vemos uma Elis plena e realizada, ao lado de um Tom feliz e à vontade. Para o desgosto de César, diz Midani: "Ele não gostou muito da Elis querendo um pouco namorar o Tom, mas isso faz parte do processo criativo".

Concluído o trabalho, o disco, lançado em 1974, vira sucesso mundial. Mas não o suficiente para redimir a cantora.

"Eu acho que Elis era completamente escrava do seu talento e do seu poder profissional e artístico", afirma Midani, antes das aspas mais agressivas do filme: "Elis congelou quando estava lá em cima. Ela se matou, interrompeu o curso da sua carreira. E o fez de uma maneira consciente e determinada."

Ou seja: Elis foi ajudada pelos homens a alcançar o sucesso. Mas encontrou a derrocada sozinha. Fiquei me perguntando se essa narrativa seria mais nociva a ela do que recriar sua imagem por inteligência artificial, para cantar ao lado da filha.

O documentário é dedicado a André Midani.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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