Cristina Fibe

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Opinião

Internação à força após pedir divórcio: caso de 2019 repete século passado

Quando Helena Lahis pediu o divórcio, após mais de 20 anos de casamento, ouviu de sua família que estava possuída. O seu marido era um alto executivo de uma das maiores gravadoras do país, o casal tinha duas filhas, a vida era perfeita: ela só podia estar louca.

O discurso foi levado ao pé da letra. Semanas depois, Helena foi internada contra a sua vontade numa clínica psiquiátrica de luxo na zona sul do Rio de Janeiro. Levada à força de sua casa por dois homens "enormes", numa ambulância, ficou proibida de usar o celular e se comunicar com amigos.

O pesadelo durou três semanas, e ela só escapou depois de contrabandear uma carta escondida num sapato. E não estou contando uma história dos anos 1940: isso tudo aconteceu em 2019.

Helena detalhou seu trauma em entrevista à atriz e apresentadora Juliana Amador, no videocast "Senta Direito Garota". Ela afirmou que passou os dias na clínica, sem previsão de alta nem diagnóstico, pensando em como pedir socorro.

"Eu não podia errar, porque se fosse descoberta, ia ficar todo mundo em cima de mim", contou a escritora. Um dia, a acompanhante de uma adolescente se ofereceu para ajudá-la, levando o recado a algum amigo.

"Aí escrevi uma carta de oito páginas, contando tudo. Falei: preciso de uma advogada e de um laudo. Seis dias depois, saí com um habeas corpus." Libertada em novembro de 2019, no dia seguinte Helena foi à delegacia registrar a ocorrência.

Em setembro deste ano, seu ex-marido, o produtor musical Paulo Lima, ainda hoje presidente da Universal Music Brasil, foi denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pelos crimes de cárcere privado e de acesso ao e-mail de Helena sem permissão.

A notícia foi publicada pelo repórter Mateus Araújo, do TAB, na semana passada. Apesar de escandaloso, o caso pouco repercutiu-- paira o silêncio entre celebridades da música, meio no qual Paulo Lima é um conhecido todo-poderoso.

O diretor técnico da Clínica Espaço Clif também foi denunciado, assim como a médica e amiga de Paulo que atestou que Helena estaria em crise de bipolaridade, agravada pelo uso de medicamentos para emagrecer.

Procuradas, a Universal Music Brasil e a clínica Clif não se pronunciaram até a publicação deste texto.

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Depois de Helena contar seu caso publicamente, outras mulheres a procuraram — e a esta colunista também — para dizer que foram internadas involuntariamente no mesmo local. Uma prática que remonta ao século passado, e que pensávamos já ter sido abolida.

A historiadora Eliza Teixeira de Toledo explica que, em especial no fim do século 19 e começo do 20, "várias teorias em trabalhos de ginecologia, sexologia e psiquiatria atribuíam às mulheres um caráter mental instável e sempre sujeito a transtornos de ordem psi".

Toledo, doutora em História pela Fiocruz, afirma que, em momentos de luta das mulheres por seus direitos, "a ideia de uma 'loucura feminina' foi um grande trunfo para internações compulsórias em instituições psiquiátricas, muitas delas demandadas por seus maridos".

"Desacreditar a capacidade mental e intelectual das mulheres e questionar sua lucidez são ferramentas de controle históricas que ainda perpassam nossa vida cotidiana. Elas ameaçam a exposição de nosso pensamento crítico, da nossa liberdade. Nos colocam em questão em momentos de abuso e violência de gênero", diz a historiadora.

Liberdade é a palavra que Helena Lahis usa quando olha para trás: "Essa internação foi a maior violência que eu já passei. Mas hoje eu sou livre. Minhas filhas estão vendo que vale a pena lutar pela liberdade, ter coragem, romper com o que não está bom. Vale a pena".

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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