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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

#AgoraVcSabe: Aos 11, vi religioso se masturbando ao meu lado em ônibus

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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

18/05/2022 04h00

Hoje, dia 18 de maio, é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. O movimento #AgoraVcSabe, impulsionado pelo Instituto Liberta, propõe um levante virtual para romper o silêncio das vítimas. Faço parte da campanha com o meu relato, que reproduzo abaixo.

Quando tinha 11 anos, durante uma das idas e vindas acompanhando minha mãe ao médico com meu irmão, um dos ministros da igreja católica que eu frequentava sentou-se ao meu lado no ônibus.

Minha mãe estava com Marcelo do outro lado do coletivo, um pouco mais atrás de mim. Não gostava de dividir o assento com homens, me sentia insegura. Ainda criança, já sentia um medo recorrente vindo das mulheres que andavam de transporte coletivo mas, naquele dia, o sorriso simpático e já conhecido do ministro me acalmou. Fiquei ali, sentada no canto junto à janela.

Me lembro de estar bem entretida com as imagens que corriam fora do ônibus, com a cara colada no vidro, cantarolando músicas e me divertindo com as histórias que eu mesma criava, um típico comportamento de criança. Por causa da minha distração, o susto foi ainda maior quando percebi que o ministro estava alisando o próprio pênis ereto para fora da calça.

Nunca havia visto uma cena daquela, senti nojo e muito medo. Não sabia o que fazer, tinha medo de gritar, de me levantar, medo que ele pensasse que eu estava gostando. Só sabia me encolher no canto entre o banco e a janela, queria passar pela fresta e fugir daquela situação imunda que se prolongou por cerca de meia hora, o tempo que ele demorou para descer do ônibus.

Durante esses eternos trinta minutos em que ele se masturbava ao meu lado, segurava uma pasta em uma das mãos escondendo para o restante do ônibus a violência que ele cometia. Ainda assim, duas mulheres perceberam o que estava acontecendo e não reagiram, não me ajudaram, não fizeram nada.

Lembro que ele falou alguma coisa próximo ao meu ouvido, e eu tapei os com as mãos para não escutar o que ele dizia. Assim que ele desceu, me levantei e fui correndo em direção à minha mãe. A minha cara perplexa chamou a atenção. Ela quis saber o que estava acontecendo e porque eu havia levantado, já que o ônibus estava cheio e faltava muito para o nosso ponto.

Olhei para ela me sentindo vazia, não fui capaz de contar o ocorrido, só disse que não havia acontecido nada e segui calada, estranha, culpada e completamente enojada para o meu destino. Nunca mais fui à igreja na qual ele ministrava missas. Nem quando, anos mais tarde, um amigo faleceu e foi velado naquela capela.

Nunca tive coragem de falar sobre isso com minha mãe.

Só consegui contar a outras mulheres quando já tinha 32 anos. Foi em uma roda de conversa que revelei o abuso. No mesmo dia, tomei coragem de falar desse e de outros abusos que eu havia sofrido ao longo da vida, pois tinha entendido que a culpa que eu carregava não era minha.

Esse silêncio que me engasgou por longos 20 anos está no foco do movimento #AgoraVcSabe. Por medo, culpa ou vergonha, as vítimas guardam para si os crimes sofridos e, com isso, facilitam a impunidade dos criminosos e dificultam a formulação de políticas que sejam capazes de modificar a situação. É justamente desse medo que se valem os abusadores, o silêncio acaba sendo usado por eles como uma arma contra a própria vítima.

A nossa criação, enquanto mulheres, costuma ser pautada na culpa. Não sente de pernas abertas, não use decote, não vista roupas curtas. Todas essas mensagens fazem com que muitas de nós se sintam culpadas em vez de se reconhecerem como vítimas.

Abusos sacrificam também os meninos. A maior parte dos garotos vítimas têm entre 4 e 8 anos de idade.

O dado é do Anuário de Violências do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que mostra ainda que 67% dos casos acontecem dentro das residências e, assim como no meu, 86% são praticados por conhecidos das vítimas. Muitas vezes é alguém doce e gentil, o que dificulta ainda mais a denúncia do crime. Aquele tio amoroso e simpático ou o amigo da família que seduz com balas e presentes, ganha a confiança da criança para depois cometer o crime.

As nojentas visitas no quarto pela madruga. Os olhares pela fresta durante o banho, a masturbação diante da criança ou do adolescente, as brincadeiras de alisar os órgãos sexuais, tudo isso é abuso sexual infantil e precisa ser combatido.

Um dos grandes propósitos do levante virtual é informar. Evidenciar que esse é um crime que acontece em todas as camadas sociais e que casos aparentemente considerados sutis também são crimes de abuso sexual.

No site do Instituto Liberta você pode responder a questões para identificar se uma situação ocorrida contigo ou com alguém que você conheça é ou não uma violência sexual. Também é possível encontrar informações sobre como denunciar o crime e fazer parte do levante gravando um vídeo.

A passeata virtual #AgoraVcSabe se inspirou em movimentos que utilizaram as redes sociais para evidenciar situações abusivas relatadas pelas vítimas, como o #PrimeiroAssedio e o #ChegadeFiuFiu. Iniciativas de extrema importância para acender luzes em criminosos que se aproveitam da vulnerabilidade das vítimas e do silêncio para ficarem impunes.

Usei este texto para quebrar meu silêncio em uma tentativa de fazer algo por mim, pois acredito que a fala é um importante remédio aos males e, também, para engrossar o coro dessa causa que acredito e que tive a possibilidade de construir juntamente com o Instituto Liberta.