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Cris Guterres

Educação sexual de adolescentes: governo pratica abstinência do trabalho

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. - Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Imagem: Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista de Universa

26/01/2021 04h00

Eu ando ligada no mood #mãedeadolescente. Desde que me tornei mãe por adoção de um jovem de 15 anos, o que mais habita minhas conversas entre amigos, pesquisas e as sessões de terapia são os assuntos relacionados à maneira como educar meu filho no mundo atual.

O assunto da vez é sexo. Não, esta não é a coluna da Ana Canosa, minha colega aqui de Universa que escreve com propriedade sobre o assunto. Quero mais é compartilhar minha vivência com vocês, principalmente as que são mães.

Desde o início, eu e meu filho falamos muito sobre sexo. Até porque quando ele chegou já veio com o "brinde" a tiracolo: a namorada. Não tenho dificuldade para abordar nenhum tema considerado tabu com meu menino. Falo de sexo, doenças sexualmente transmissíveis, abuso sexual, relacionamento abusivo e tudo o que ele precisa saber para ser uma pessoa bem informada e ciente de suas responsabilidades dele.

No entanto, percebo que a facilidade que tenho em falar no assunto não é uma constante dentro de outros lares. Muitas famílias têm dificuldade para estar juntas, que dirá conversar.

Dias desses, numa conversa sobre nossos filhos adolescentes, perguntei a uma colega se ela conversava sobre sexo com a filha e ela me disse: 'Não, mas ela sabe, sempre conversa com as amigas dela'. Fiquei surpresa com a resposta, mas logo em seguida me lembrei de que esta terceirização da responsabilidade de educar o filho sobre sexo, drogas e outros assuntos importantes também foi delegada aos amigos e à escola pela minha própria mãe.

Alguns pais acreditam que o filho vai encontrar as informações corretas na escola, numa conversa com os amigos ou até mesmo na internet. Delegar uma função tão importante pode custar a vida do seu filho. Nós não vamos resolver todos os problemas e dificuldades gerados na vida de nossos rebentos com conversas, mas podemos evitar muitos deles com argumentos e exemplos.

Nossos adolescentes estão entrando na vida sexual cada vez mais cedo. O estímulo ao sexo hoje é mais intenso do que há 10, 15 anos atrás. O Brasil é o país com a maior taxa de gravidez na adolescência da América Latina. São cerca de 68 nascimentos a cada mil jovens entre 15 e 19 anos. Os dados são de um relatório da Organização Mundial de Saúde que apontou a América Latina como a região no mundo com uma tendência crescente de gravidez na adolescência.

A escola e as unidades de saúde possuem um papel importante dentro desta conversa. A informação também precisa partir destes dois órgãos importantes para o desenvolvimento saudável das nossas crianças. O problema é que normalmente as duas instituições se isentam deste papel. No governo atual, a abstinência sexual é utilizada como política de saúde pública.

A Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, investe na abstinência sexual como política de educação sexual, planejamento familiar e prevenção de doenças aos jovens brasileiros.

A ministra acha que dizer para os nossos jovens não transarem vai diminui o número de adolescentes grávidas ou de meninos e meninas com doenças sexualmente transmissíveis. O governo também pratica a abstinência de trabalho. Pouquíssimas políticas foram colocadas em execução desde a entrada de Damares no cargo. Assistimos a uma política do deboche onde a ministra se ocupa de falar besteiras, propagar sandices e cometer crimes de negligência.

Precisamos falar aos nossos filhos que no corpo deles ninguém toca sem autorização, nem o pai, nem a mãe, nem o tio, nem ninguém. A conversa pode ensiná-los, desde pequenos, a denunciar um abuso sexual. Precisamos ensinar nossos meninos a não serem protagonistas de situações sexuais forçadas com meninas que não estão em possibilidade de dizer não ao ato sexual. Ensinar nossas meninas a não se culparem pelos abusos sexuais, a exigir preservativo de seus parceiros e a não transar com quem não querem ainda que este alguém seja o marido ou namorado delas.

Para muitos pais, pode parecer constrangedora esta conversa, mas não desista. Fale, chame seu filho, exponha suas experiências, permita que ele possa falar sem ser julgado. Tentemos chegar o mais próximo possível de uma relação de confiança mútua.