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Cris Guterres

Para uma mulher negra, excelência não é meta, é nota de corte para tudo

Serena Willians no Masters 1000 de Roma  - AFP PHOTO / FILIPPO MONTEFORTE
Serena Willians no Masters 1000 de Roma Imagem: AFP PHOTO / FILIPPO MONTEFORTE
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

11/08/2020 04h00

Há alguns dias, durante uma live sobre medo, fiz uma confissão: meu pai, durante toda a minha vida, me disse incansavelmente que, sendo negra, eu precisaria ser duas vezes melhor do que as minhas colegas brancas para ser considerada, pela sociedade, metade do que elas tinham de bom. Dezenas de pessoas que assistiam à conversa se identificaram. Embora o Brasil tenha insistido incansavelmente em se apresentar como um país sem barreiras raciais, assim como o meu pai, inúmeras famílias negras sempre souberam de que maneira o racismo estrutural impunha obstáculos para limitar a nossa ascensão.

Demorei a entender exatamente o que meu pai queria dizer. Tenho lembranças de muito nova, oito ou nove anos, ouvindo o Seu Manu, diante de um boletim todo em notas azuis, me dizer que eu não estava me dedicando o suficiente para conquistar um lugar ao sol.

Meu boletim era mediano para meu pai embora eu trouxesse como nota mais baixa um 7 em matemática. Ele olhava e via exatamente o que a sociedade iria cuspir na minha cara anos depois.

Sendo mulher e negra, atender ao mínimo do padrão nunca será o bastante. Para uma mulher como eu, excelência não pode ser vislumbrada como uma meta, mas sim como nota de corte em tudo o que faz.

Veja Serena Willians. A meu ver, uma das melhores atletas de todos os tempos. Serena está sempre entregando além. Ao dominar um dos esportes mais brancos do planeta, Serena conseguiu criar em diversas crianças negras o sonho de desbravar territórios onde a placa "só para brancos" sempre esteve escrita no rosto de seus habitantes.

Mesmo Serena tendo conquistado o que um dia pareceu ser impossível, ela continua sendo julgada no tribunal racial por qualquer atitude considerada inadequada pela branquitude. Em setembro de 2018 na final da US Open, Serena se exaltou contra uma punição do árbitro e sua atitude gerou vaias da torcida para a grande vencedora do torneio, outra atleta negra, Naomi Osaka, atualmente a número um do tênis feminino mundial.

À época, a imprensa de diversos países, inclusive a brasileira, colocou as duas como rivais e Serena foi condenada como imatura e classificada como "angry black woman", termo para raivosa ou agressiva.

Foram comuns manchetes da imprensa dizendo que "Serena manchou o tênis mundial" ou "O dia que Serena fez barraco na quadra". Ainda hoje, alguns comentaristas insistem em mencionar este episódio durante a narração de uma partida de Serena.

O mais intrigante destas colocações é o fato de que tenistas homens e brancos como o Roger Federer, por exemplo, estão acostumados a se comportarem desta maneira na quadra e serem questionados pontualmente e de modo bem menos crítico do que Serena foi.

Erros não são permitidos para pessoas negras, muito menos para mulheres e negras.

Ainda tendo Serena como exemplo para a maneira como se configura a estrutura racial, lembro que já tendo sido vencedora de 23, eu disse 23 Grand Slams, Serena viu durante cinco anos a tenista russa Maria Sharapova ser a atleta mais bem paga do mundo mesmo tendo ela 18 Grand Slams a menos. Seja 18 vezes melhor e ainda assim será considerada metade tão boa quanto.

Quando se faz parte de um grupo historicamente discriminado, o seu erro, além de manchar a sua história, será considerado um erro coletivo. Uma mulher comete um erro no trânsito e é comum ouvirmos: "mulher no volante perigo constante" ou "vá pilotar um fogão". O contrário não se aplica quando um homem comete o mesmo erro. Ele responde por si próprio e não pelo grupo. Sinto como se tivesse que escalar o Monte Everest todos os dias sem poder cometer um deslize sequer. Um erro durante a escalada pode apagar todas as conquistas anteriores e nunca será um fracasso único, um fracasso só meu.

Shonda Rhimes, uma das mulheres mais poderosas de Hollywood, criadora de sucessos como Grey's Anatomy e Scandal usa a sigla P.U.D. para se referir ao que ela chama Primeira Única Diferenciada. Shonda foi a primeira mulher negra a ter sua própria série na TV estadunidense e foi além ao colocar Kerry Washington como a primeira protagonista negra em Scandal.

Shonda sabia que se não desse certo poderia ser o fim para ela e para outras mulheres. Como ela mesma disse em entrevistas, poderia demorar mais duas décadas para outra negra ser contratada para o cargo caso a série fosse um fracasso.

"Mas como ser duas vezes melhor quando se está pelo menos 100 vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas?" Minha politização se iniciou através do hip hop. Copiando as letras dos Racionais Mc's no caderno. Quando em 2006 ouvi o rapper Mano Brown dizer a frase acima durante um show parecia que ele tinha invadido minha mente e descoberto o que eu vinha questionando há algum tempo. Como eu seria melhor se na verdade eu me sentia atrasada? Como eu seria excelente se na verdade eu me sentia insuficiente?

Por diversas vezes, pensei que seria promovida no trabalho e não fui mesmo tendo trabalhado além do que todos no escritório. Mais de uma vez ouvi que não seria escolhida por ser qualificada demais para o cargo ou que eu precisava entender que não seria indicada para a chefia porque, embora eu reunisse todos os critérios e não tivesse mais ninguém tão bem preparado, ainda não era o momento.

Quando será o momento? Quando serão derrubadas as barreiras raciais que impedem que profissionais brilhantes ocupem cargos de relevância por serem negros?

Essa busca incansável por excelência em razão da invisibilização causa danos graves aos grupos historicamente oprimidos. Por quantas gerações a mais os pais de crianças negras terão que alertá-las de que serão sempre julgadas pelo tom da pele e não pela inteligência?

Eu cresci acreditando que a excelência era a maneira como eu conseguiria derrubar o racismo ou o sexismo. Eu realmente acreditei nisto até perceber que ao alcançar a linha de chegada ela era movimentada de lugar. A excelência como arma de combate ao privilégio branco nos desumaniza.

Nós, mulheres negras e todas aquelas que nunca recebem flores, somos especialistas em sobrevivência, somos fortes o suficiente para lutar por nós e por nossos filhos, mas eu também quero ter o direito de ser medíocre sem ser julgada por isto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.