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Depois que mãe teve Alzheimer, filha passa a ser curadora dela: 'Inversão'

"Existe muito preconceito em relação aos curadores de idosos" - iStock
'Existe muito preconceito em relação aos curadores de idosos' Imagem: iStock
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

06/11/2021 04h00

Ela sobreviveu a três maridos até, aos 76 anos, se instalar em um quarto de uma clínica residencial para idosos em São Paulo, a fim de tratar da primeira fase da doença de Alzheimer. "E ela continua sobrevivendo", brinca a filha, de 56 anos, que há dez anos se qualificou para ser curadora da mãe. "Três colegas de quarto já se foram, mas ela continua firmona."

A mãe, hoje com 86 anos e com estágio avançado da doença, perdeu a autonomia. Anda de cadeira de rodas. "É duro de ver, porque minha mãe era muito atirada, gostava de dançar. Agora, quando eu danço para animá-la, ela, no máximo, mexe a sobrancelha e o ombro."

Não é comum encontrar casos em que os filhos ganham a guarda dos pais — ou a curatela, termo usado para definir a tutela de maiores de idade considerados incapacitados. Também não é comum que curadores tornem público esse processo de inversão da ordem natural das coisas. "Existe muito preconceito em relação aos curadores", diz minha entrevistada. "As pessoas, quase sempre, partem do pressuposto de que os curadores são mal-intencionados e querem explorar os pais. Até concordo que exista muita gente assim, mas não dá para generalizar."

Minha entrevistada topa conversar comigo, mas prefere manter sua privacidade preservada. Por isso, nessa conversa sobre tutela, demência e desejo de viver, não publico seu nome ou qualquer dado que possa revelar sua identidade.

Como foi a experiência de se transformar em curadora de sua mãe?
Essa pergunta me faz lembrar do dia em que eu fui assinar os papéis para ser curadora, há dez anos. Eu estava nervosa e, quando peguei a caneta, na hora imaginei minha mãe assinando meu boletim da escola. Foi uma sensação muito estranha. Lembro de dizer para o advogado: 'não, não quero assinar'. Mas não tinha jeito, eu precisava lidar com aquilo. Era a minha vida, a vida da minha mãe, era a nossa realidade.

Mas por que sua mãe precisou ser tutelada?
Até os 70 e poucos anos, minha mãe sempre viveu de forma autônoma. Tínhamos uma relação normal de mãe e filha. Eu trabalhava de dia, morava em meu apartamento, ela no dela. Eu ia visitá-la de vez em quando, dava uma ajuda aqui e ali. Mas, aos 75 anos, minha mãe começou a decair muito rapidamente. Passei um tempo cuidando dela, cozinhando, administrando as coisas. Mas aí ela passou a deixar o gás ligado, se trancar para fora ou para dentro do apartamento.

Um dia, a síndica do prédio dela me ligou dizendo que minha mãe tinha surtado, que estava na portaria gritando. Foi a época que ela deixou de tomar banho, de comer, de se cuidar. Levei ao geriatra, ela estava com começo de Alzheimer.

Fiquei com ela por um tempo em casa, mas eu não podia largar o emprego. O jeito foi interná-la em uma clínica com os cuidados adequados.

E o processo de curatela?
Aconteceu ao mesmo tempo da internação. Foi um processo jurídico longo. A gente precisou apresentar documentação, todo tipo de registro de casamento, divórcio, as relações de bens... é bem burocrático. Depois dos documentos, um advogado entrou com o pedido de curatela na Vara da Família e o processo começou. Aí, foi a hora de apresentar laudos médicos, no nosso caso, foi o de um neurologista geriatra relatando que ela estava com Alzheimer. Esse laudo e outros exames médicos foram levados ao médico do Imesc [Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo].

O instituto, se quiser, pode pedir mais dados, mas no nosso caso, não foi preciso. Depois, a gente passou pela audiência com juiz e promotor. Eles a entrevistaram para saber como era a vida dela, o quanto ela entendia o que estava acontecendo, este tipo de coisa. Se o juiz entendesse que ela realmente estava incapacitada, aprovava a figura do curador provisório. Foi o meu caso, virei responsável pelos cuidados médicos, psicológicos e pelas contas da minha mãe. Depois de um ano e pouco, a gente voltou à audiência com o juiz para reavaliação e fui empossada como curadora definitiva.

Você me contou que tem de prestar conta de todos os gastos dela para a Justiça anualmente. Isso é bom ou ruim?
Acho bom, facilita até. No começo, dá trabalho, pegar recibo de tudo, escanear, colocar na planilha... Depois, a gente se acostuma. Se ela recebesse pensão, talvez eu não precisasse fazer nada, só fornecer a prova de vida dela. Mas minha mãe tem imóveis, a renda deles paga os custos com a clínica. Então, se eu não fosse curadora, como isso seria resolvido? Quem ia assinar contrato, conversar com locatário, tomar decisões práticas? Por outro lado, me sinto com um peso enorme.

Ser responsável por alguém não é algo que a gente sonhe, claro que eu preferiria cuidar apenas da minha vida.

Uma vez, escrevi 5 páginas de tarefas que faço como curadora da minha mãe: comprar fralda, medicamento, levar para fazer exame, passar os resultados para o médico, comprar roupa, levar para passear, cuidar do aluguel, de reforma, fazer relatórios.

Você pensa sobre a perda de autonomia da sua mãe? Sobre o que ela acha ou acharia dessa situação? Lembro de ter um visto um filme em que uma golpista começa a conseguir laudos falsos para internar idosos e conseguir a curatela deles. Me pareceu um pesadelo que poderia realmente acontecer na vida de alguns idosos.
Isso é coisa de filme. Na vida real, duvido que um golpista consiga a curatela de um idoso, porque o processo é bem exigente e detalhado. Existe muito preconceito em relação aos curadores, essa é a verdade.

As pessoas, quase sempre, partem do pressuposto de que eles são mal-intencionados e querem explorar os pais. Até concordo que exista gente assim, mas não dá para generalizar. Quanto à minha mãe, ela não tem a percepção do que está acontecendo.

Acho que, quando foi para a clínica, ela deu graças a deus. Comida boa, roupa bem lavada, diversão... Porque, nossa, como tem festa na clínica... Mas hoje a parte da diversão nem conta muito, minha mãe está bem ausente. Mesmo assim, está comendo bem, bate uma "pratada" em todas as refeições [risadas].

Ela não está lá, mas o desejo de viver continua, não é?
Sim. Acho que minha mãe vai sobreviver a muita gente.

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