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Quando papéis se invertem: dilemas dos filhos que têm que cuidar dos pais

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Imagem: Getty Images

Priscilla Auilo Haikal

Colaboração para o VivaBem

17/03/2021 04h00

Assim é o ciclo da vida: somos cuidados e temos alguém que zela pela nossa saúde, mas em determinado momento os papéis se invertem e cabe a nós todas as decisões sobre aqueles que protagonizaram nossa criação.

Com o processo de aumento da longevidade, é esperado que o número de pessoas que vivem com algum tipo de doença neurodegenerativa também se eleve. No caso da demência, por exemplo, a projeção é que o diagnóstico triplique de 50 milhões para 152 milhões até 2050, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Isso porque a chance de desenvolver doenças degenerativas cresce conforme a idade avança, e os novos quadros já correspondem a 55 mil diagnósticos por ano.

Nesse contexto, quando uma mãe ou um pai se torna totalmente dependente de atenção e auxílio, além de aceitação e entendimento, é preciso que o filho desenvolva habilidades que não são ensinadas na escola e nem são muito difundidas na sociedade. A situação frequentemente é encarada com surpresa, uma experiência não normativa, geradora de estresse, tensão e adaptação. Mas também pode ser vista como brecha para uma retribuição madura e espontânea, dependendo dos sentimentos e das relações estabelecidas até ali.

Ninguém nasce pronto para cuidar do outro

A dinâmica e a história familiar costumam influenciar bastante em situações delicadas e marcantes como a descoberta de uma doença degenerativa entre um dos seus integrantes. Se a relação com os genitores não foi afetivamente bem construída, cuidar dos pais pode gerar sentimentos conflitantes, o que somado a questões sociais e econômicas, tem chance de se tornar uma dificuldade concreta pela sobrecarga de funções.

É possível que haja sensações de tristeza e luto pelas perdas que os esperam, revolta e indignação por terem que lidar com a situação, ou até medo, culpa e desespero por não saberem de que forma agir. O diagnóstico também pode gerar negação e frustração pelas mudanças que devem ocorrer dali em diante e pelos filhos terem que assumir novos papéis e tarefas nessa conjuntura de cuidados. Não é fácil reconhecer e internalizar a responsabilidade por limpar, medicar, alimentar, observar as ações, adaptar o ambiente, monitorar exames e receitas, checar feridas e hematomas daqueles adultos.

Cuidador de idoso - iStock - iStock
Imagem: iStock

Passo a passo

Para começar, é preciso listar e acionar a própria rede de apoio para entender melhor sobre o problema ou doença dos pais, e isso exige tempo, recursos e disposição. É buscar ajuda para lidar emocionalmente e financeiramente com as demandas envolvidas, seja dentro da própria família, entre amigos e colegas, seja no SUS (Sistema Único de Saúde), com assistentes sociais ou organizações do terceiro setor. O ideal é obter suporte nessa missão de entender sobre a doença, seu curso, sintomas, consequências, terapias e tratamentos possíveis.

As tarefas precisam ser divididas igualitariamente entre irmãos e parentes. Não é raro que toda a carga emotiva seja direcionada para a figura da filha, já que as mulheres sempre foram consideradas as principais responsáveis pela manutenção das relações familiares e pelos cuidados dos seus integrantes. Mas isso precisa ser questionado. Lidar com uma pessoa dependente na família não envolve apenas boa vontade, não cabe somente ao gênero feminino e tampouco é uma circunstância de menor valor.

Outra atitude fundamental é lembrar que a pessoa a ser cuidada já teve independência e autonomia e estabeleceu seus gostos e hábitos. Diferente de uma criança, não precisa ser "educada" nessa fase da vida, e sim cuidada. É importante criar situações comedidas e de estímulo, que a possibilitem realizar determinadas atividades, mesmo que devagar e por etapas, mas que respeite seu tempo e suas capacidades.

Apesar da intensidade do que isso pode representar, é um momento para rever laços e despertar compaixão ao perceber que os pais chegaram a um estágio de limitação e dependência, numa oportunidade inclusive de exercer a solidariedade intergeracional. É importante se apropriar disso como um espaço de aprendizado, de partilha e de vivências transformadoras. Quem assumir essa responsabilidade precisa sentir que foi uma escolha, e não uma condição imposta. Essa pretensa liberdade faz muita diferença e ajuda na manutenção das relações saudáveis na família.

Idoso com família - iStock - iStock
Imagem: iStock

Muito além das boas intenções

Quando existe uma conjuntura favorável, que envolve divisão igualitária de tarefas, apoio de um cuidador profissional, aconselhamento psicoterapêutico e recursos financeiros para bancar os gastos e a assistência necessária, a atividade de cuidar fica menos densa e trabalhosa, o que pode abrir caminho para reflexão, autoavaliação e crescimento. Compartilhar experiências com outras pessoas que vivenciaram situações similares é bastante aconselhável para contribuir nesse processo.

Entretanto, há uma alta taxa de adoecimento daqueles que assumem a função de cuidador dos pais, principalmente entre mulheres de classes mais baixas, que ficam sobrecarregadas com o acúmulo de tarefas e pelas dificuldades na falta de recursos e de oportunidades devido à desigualdade social.

Apesar de complexo, o equilíbrio nas tarefas de cuidar do outro e de si é imprescindível. Os cuidadores precisam sinalizar quando estão acumulando funções e estabelecer limites nessa relação, reservando tempo para fazerem suas próprias atividades —e que não sejam somente obrigações. Assim é possível evitar que esta fase da vida seja tida como um fardo e se configure em novas partilhas e aprendizados, que envolvam amor, carinho e reciprocidade.

Fontes: Deusivania Falcão, psicóloga e professora associada dos cursos de graduação e pós-graduação em gerontologia da EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo); Isabel Cristina Gomes, psicanalista, professora titular do Departamento de Psicologia Clínica do IP-USP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo) e coordenadora do LabCaFam (Laboratório de Casal e Família: Clínica e Estudos Psicossociais); Katia Simone Ploner, professora titular do curso de psicologia na Univali (Universidade do Vale do Itajaí) e coordenadora do projeto Atenção à Saúde do Idoso e seus Familiares.

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