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Nada fica sem ser dito: empresa manda recado a seus parentes após sua morte

Empresa se chama Aura.life e foi criada por um portador de uma doença incurável,  - Getty Images
Empresa se chama Aura.life e foi criada por um portador de uma doença incurável, Imagem: Getty Images
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

16/01/2021 04h00

Descubro, por acaso, que uma empresa britânica oferece a possibilidade de você administrar sua vida depois da morte. Vida, claro, é uma maneira de dizer. Esta empresa se chama Aura.life, foi criada por um portador de uma doença incurável, e dispõe dos seguintes serviços:

  • permite publicar sua biografia, escrita de próprio punho e com a ajuda de colaboradores, para ser acessada por quem você quiser depois de sua morte
  • permite publicar o álbum de fotos de sua vida
  • permite armazenar as recomendações para a sua cerimônia de despedida
  • orienta nas medidas funerárias diversas
  • programa mensagens futuras para parentes, amados etc?

Este último serviço é chamado de Heartfelt Messages e promete "facilitar as mais importantes conversas da vida com as pessoas mais importantes". Continua o texto da empresa: "Sinta-se em paz ao saber que nada ficou sem ser dito. Você também pode deixar mensagens futuras para as pessoas em momentos específicos".

O Heartfelt Messages da Aura, assim como outros serviços (ForKeeps e HereAfeter, concorrentes que encontrei no Google), promete a beleza de você poder "puxar o pé" de alguém depois de morto. Deliberada e planejadamente. Não para assustá-lo, como fazem as assombrações. Mas para confortar - a viúva ou o viúvo -, provocar um sorriso - nos seus amigos -, alegrar - seus filhos. Li a história de um pai que deixou mensagens programadas para serem lidas a cada aniversário das três filhas. De um irmão que se sentiu menos desconsolado ao ler as centenas de mensagens post mortem deixadas pela irmã.

Sim, você pode alegar que as cartas póstumas surtiriam o mesmo efeito. Ou fitas de vídeo, gravadas em vida pelo falecido. Há ainda quem lembre dos mediadores espirituais para o contato com os mortos queridos. Por outro lado, com certeza não existe nada mais simples e palpável do que utilizar a inteligência digital para se fazer presente em uma realidade que não mais conta com você. É fácil e relativamente barato. Pacotes de dez mensagens estavam sendo ofertados por 29 dólares no ForKeeps na semana passada. No site brasileiro Meu Último Desejo, a assinatura mensal saía por R$ 4,99 em 2019. (Como quase tudo na vida, vai ficando mais caro quanto mais você quer falar ou quanto mais demora a morrer.)

Estou brincando um pouco com o assunto, acho que o tema da morte me deixa nervosa, do mesmo jeito que deve acontecer com você. Mas ambos sabemos, eu e você, que este é um assunto sério. Não sombrio, não intocável, apenas sério. E assuntos sérios não devem ser escondidos e evitados.

Há alguns anos, escrevi um documento em word com instruções práticas, dirigidas aos meus filhos, para o dia em que eu morrer. Este documento fica no meu desktop. Foi criado para organizar a burocracia que eles terão de enfrentar no futuro. Meus filhos não partilham comigo a ideia de que a gente precisa falar, sim, sobre a morte. Falar sobre ela não vai antecipá-la, vai apenas deixá-la menos assustadora. Mas eles se recusam a reconhecer a existência do documento.

Imagino que eu vá precisar dos serviços digitais para me comunicar com eles do além.

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