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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não é um louco ou monstro que surge das sombras quem mais estupra no Brasil

Violência de gênero é algo estrutural e geracional no Brasil - Getty Images/EyeEm
Violência de gênero é algo estrutural e geracional no Brasil Imagem: Getty Images/EyeEm
Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

16/07/2021 04h00

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) ontem, aponta mais uma vez para algo que a sociedade teima em não encarar: o agressor dorme no homem comum.

Como mostra essa matéria de Universa com base no relatório, em 2020, no Brasil, 53% das vítimas de estupro eram meninas de até 13 anos —o equivalente a cerca de um caso a cada 15 minutos— e em 85% das situações, o estuprador era conhecido. Já essa reportagem, também realizada com base nos dados do Anuário, aponta que o total de casos de feminicídio registrados em 2020 foi de 1.350 —algo como uma mulher sendo assassinada a cada sete horas. Sobre a violência praticada por companheiros ou ex-companheiros, os dados revelam que um boletim de ocorrência é registrado a cada dois minutos e meio em média. Isso sem mencionar a subnotificação comum a esses tipos de crimes, ainda mais durante a pandemia de coronavírus, com as escolas fechadas e crianças e mulheres presas dentro de casa com seus algozes.

A ideia do "monstro", do "louco", do homem desconhecido que aparece das sombras para violentar uma mulher ou uma criança precisa urgentemente ser desconstruída na medida em que não ajuda a diminuir a violência de gênero —que é geracional e estrutural no Brasil— e só turva a visão da realidade.

Em conversa com a documentarista Eliza Capai para o podcast Pauta Pública (que sai hoje às 10h portanto estou contando isso aqui na coluna em primeira mão), ela dizia que quando foi convidada para dirigir a série documental "Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime", lançada pela Netflix, estava fazendo um trabalho dentro de um presídio com homens agressores.

Segundo Eliza, muitos estavam presos por violência doméstica ou por feminicídio e alguns diziam que não entendiam porque estavam lá. "Eles falavam 'não sei porque estou aqui, foi só mais uma briga' e eu acredito que alguns não entendiam mesmo, porque cresceram vendo essa mesma violência dentro de casa". Ela reflete que a fonte do afeto muitas vezes também é fonte de violência na família e isso é normalizado por gerações até que se interrompa esse ciclo.

Conversávamos sobre o fato de que a própria Elize Matsunaga, que barbaramente assassinou e esquartejou o marido, tem uma história marcada por violências de gênero e sobre como toda a condução do caso por parte da mídia e da Justiça foi (e ainda está sendo) permeada por machismos.

Veja, se eu pudesse, usaria aqui letras garrafais, grifadas e piscantes para dizer, como reforçou Eliza Capai em nossa entrevista, que nada justifica a morte e o esquartejamento de uma pessoa.

De novo: Nada justifica a morte e o esquartejamento de uma pessoa.

Assim como nada justifica os abusos de crianças, a morte violenta de mulheres, o estupro, a tortura e a morte de pessoas LGBTQIA+ por LGBTfobia. Dizer que os agressores muitas vezes também têm vidas marcadas por violências não é de maneira nenhuma legitimar essa agressão e nunca deve ser.

Ao contrário: quando assumimos que a violência de gênero é algo estrutural e geracional no Brasil, quando refletimos sobre como a misoginia afeta também a criação dos meninos e sobre como essa violência tem sido legitimada inclusive pelos governantes do país, entendemos que para além de uma rede de proteção efetiva e acolhimento às vítimas (que hoje são escassas, cheias de gargalos e permeadas por processos de revitimização), precisamos também repensar nossa responsabilidade como jornalistas ao cobrir esses casos usando os termos corretos, elencando as informações sem reforçar estereótipos ou explorar a dor de pessoas em situação de vulnerabilidade, refletir sobre o papel da Justiça e da polícia nas conduções e sobretudo na necessidade urgente de se discutir machismo e LGBTfobia nas escolas, para que esses ciclos sejam finalmente rompidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL