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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Olimpíada nos ajudou a resgatar o verde e amarelo da bandeira brasileira

Rebeca Andrade: duas medalhas e representante do Brasil na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Tóquio - Reprodução
Rebeca Andrade: duas medalhas e representante do Brasil na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Tóquio Imagem: Reprodução
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

06/08/2021 04h00

Não canso de dizer que a moda comunica o tempo todo e, no esporte, ela está presente de uma forma significativa. Sobretudo em eventos globais, como as Olimpíadas e campeonatos mundiais, os trajes carregam cores e símbolos de uma cultura. São responsáveis por sintetizar informações sobre o território que representam.

Aqui no Brasil, temos o verde e amarelo, que nunca foi uma combinação exatamente preferida por nós, exceto em momentos específicos de torcida em Olimpíadas e, principalmente, a Copa do Mundo. Era o afeto que marcava a forma como usamos essa combinação. Eu me lembro de ter, por exemplo, uma parte do armário reservada à dupla de tons para fazer as combinações específicas dessas épocas.

No entanto, temos um fenômeno recente. O verde-amarelo, que sempre foi de todo mundo, foi cooptado por um grupo político específico, que usou representação de uma narrativa de suposto nacionalismo e compromisso com o país. Narrativa esta que não se sustenta, considerando a forma como a nação vem sendo conduzida por este grupo — e que ficou escancarada com o descaso no controle da pandemia.

Logo, as cores da bandeira do Brasil ganharam novas conotações. Para alguns, passou a simbolizar as próprias visões violentas e preconceituosas. Enquanto isso, outra parcela da sociedade, na qual me encaixo, se distanciou desses símbolos, justamente por não se identificar com a atuação do tal grupo.

Foi um distanciamento imposto, empurrado goela abaixo. Fizeram com que a gente não mais se sentisse confortável em vesti-las. Tão injusto e tão violento, porque o verde e o amarelo deveriam ser representativos para todes — e todes com ''E'' maiúsculo.

Então, chegam os Jogos Olímpicos. De repente, nos emocionamos com a bandeira sendo abraçada, exaltada ou hasteada, com os tons pintando os vencedores das competições. A manifestação desta emoção é quase uma catarse, um grito guardado, uma explosão. Um misto de felicidade pela ideia de resgate com uma dor adormecida, sufocada.

E agora? Se eu tenho o desejo de torcer, como torcer sem comunicar o extremo oposto do que eu sou, do que eu quero e do que eu e muita gente acredita ser o melhor para o país?

É como se os atletas neutralizassem o que alguns grupos têm tentado atribuir de valor ao verde e amarelo. E, a partir daí, conseguimos nos conectar afetivamente e emocionalmente com esta combinação novamente

Enquanto certo grupo tenta nos oprimir, temos Rebecas, Rayssas, Anas Marcelas e Ítalos resgatando em mim, e em tantas pessoas, a emoção em torno dos códigos do verde e amarelo, dos nossos uniformes, da nossa bandeira, do nosso hino nacional.

Inclusive, quero acreditar que aí reside a cara do Brasil: Rebeca Andrade, uma mulher, negra, periférica e vitoriosa, envolta da bandeira. Imagens assim nos entregam a possibilidade de devolver as nossas cores aos lugares de onde nunca deveriam ter saído — um lugar de orgulho e um lugar de todEs.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL