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Olimpíadas: 'Pediram para subirmos de biquíni ao 1º pódio feminino do país'

Adriana Samuel ao lado das colegas Mônica, Jacqueline e Sandra, no pódio dos Jogos de Atlanta, em 1996 - Divulgação
Adriana Samuel ao lado das colegas Mônica, Jacqueline e Sandra, no pódio dos Jogos de Atlanta, em 1996 Imagem: Divulgação

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

26/07/2021 04h00

Há 25 anos, quando mulheres brasileiras subiram ao pódio olímpico pela primeira vez, as campeãs do vôlei de praia tiveram que receber as medalhas de ouro e prata usando biquíni — quando o mais comum é participar da premiação vestindo o uniforme completo do Brasil, com calça e agasalho.

Naquele dia 27 de julho de 1996, duas duplas brasileiras disputaram a final da modalidade: Sandra Pires e Jacqueline Silva receberam medalhas de ouro, e Adriana Samuel e Mônica Rodrigues, de prata.

"Não foi uma escolha nossa. Naquele momento de frisson, entre o fim da partida e a premiação, fomos orientadas a subir no pódio de biquíni, e não com o agasalho do Brasil, que é o mais comum. Todo mundo levou o uniforme completo na bolsa, mas veio o pedido para ficar de biquíni porque era mais sexy, mais bonito", lembra diz Adriana Samuel, ex-atleta e hoje gestora esportiva, em entrevista a Universa.

Ela completa: "Eu me lembro da cara de frustração da Sandra [Pires, medalhista de ouro] quando recebemos essa orientação. Mas, há 25 anos, naquela adrenalina de final de jogo, a gente não se deu conta do que estava acontecendo".

Quatro anos depois, as duas duplas subiram novamente ao pódio, nas Olimpíadas de Sidney, mas, dessa vez, usando o uniforme completo.

Adriana Samuel e Sandra Pires - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Adriana Samuel e Sandra Pires receberam a medalha de bronze nas Olimpíadas de Sidney, em 2000
Imagem: Reprodução/Instagram

Nos Jogos Olímpicos de 2021, que começaram há menos de uma semana, em Tóquio, a diferença entre os uniformes masculino e feminino é um assuntos dos mais discutidos entre as atletas, que estão se posicionando contra a sexualização de seus corpos durante as competições.

As ginastas alemãs, por exemplo, decidiram substituir o tradicional collant, que deixava as pernas inteiras à mostra, por calça comprida. Já a seleção feminina de handebol de praia da Noruega foi multada pela federação europeia por se recusar a competir usando biquíni.

"A sensação que dá é que a beleza dos corpos femininos conta mais que o nosso desempenho, como se fosse preciso mostrar o corpo para compensar um jogo visto como sendo menos interessante do que o masculino.

"Não é uma federação que tem que decidir, a atleta tem que ser ouvida. Como você se sente melhor? Que roupa é mais confortável para jogar?", acredita Adriana. "Não somos apenas corpos, somos atletas".

Adriana Samuel - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
Adriana Samuel - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"A gente sabia que merecia mais reconhecimento"

Quando Adriana e as três colegas do vôlei de praia conquistaram suas primeiras medalhas, em 1996, não tinham ideia do marco que aquela vitória representava para a história do Brasil nas Olimpíadas.

"Foi lindo, mas na hora a gente não tinha a dimensão da grandiosidade do feito. O que eu sentia ali, e acho que as outras jogadoras também, era a realização de um sonho pessoal, de atleta, de chegar a uma final olímpica", lembra.

"A ficha só começou a cair mesmo quando nós voltamos para o Brasil e tivemos uma recepção à la Beatles no aeroporto. Chegamos a desfilar em carro de Bombeiros, coisa que, até então, eu só vi acontecer com os jogadores do futebol masculino."

Adriana Samuel desfila em carro de Bombeiros com Mônica, Sandra e Jacqueline após a vitória nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Adriana Samuel desfila em carro de Bombeiros com Mônica, Sandra e Jacqueline após a vitória nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996
Imagem: Arquivo pessoal

Naquela época, a modalidade feminina ainda enfrentava muita desigualdade em relação às equipes masculinas: menor número de etapas no circuito e premiação bem mais baixa. Para a medalhista — prata em Atlanta e bronze em Sidney, em 2000 — a vitória nos Estados Unidos ajudou a caminhar em direção à equidade:

"A conquista nos deu força, nos credenciou para brigar por igualdade. Mesmo sem estar pautada pelas redes sociais, pelas discussões que existem hoje, a gente sabia que merecia mais reconhecimento."

Hoje, Adriana Samuel comanda o Time Petrobras, que descobre e patrocina novos talentos no esporte. Ela está por trás da carreira de 22 atletas que disputam medalhas em Tóquio — 17 olímpicos e 5 paralímpicos, entre eles Isaquias Queiroz (canoagem), Letícia Bufoni (skate), Martine Grael e Kahena Kunze (vela), Arthur Nory e Flávia Saraiva (ginástica artística).

Juntos, os atletas gerenciados por Adriana renderam ao Brasil 29 medalhas, somando Olimpíadas e Paraolimpíadas em diferentes modalidades. Nomes ligados à ex-atleta foram responsáveis quase a metade das medalhas do Brasil nas últimas duas Olimpíadas (Rio 2016 e Londres 2012).

"De certa forma, todas as gerações dão a sua contribuição na luta por igualdade, desde a Aída dos Santos, em 1964, mas essa nova geração está babado."

"É um processo lento, as mudanças poderiam ser mais rápidas, mas a gente tem o que comemorar. Esta edição dos Jogos Olímpicos de Tóquio é a mais equilibrada em relação à participação de homens e mulheres", celebra.

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