PUBLICIDADE

Topo

Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Precisando respirar? Eu tenho uma dica ótima de série para tempos brutos

Cena da série "A Casa da Vó" - Divulgação
Cena da série "A Casa da Vó" Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

05/02/2021 04h00

Tenho falado muito em minhas redes sociais sobre respirar. Não apenas sobre o ato de respirar em si, mas sobre o quanto é importante a gente cultivar ambientes e uma rotina que a gente possa entrar em contato com a gente mesma, com calma e atenção.

Isso tem se tornado cada vez mais urgente pra mim e pra muita gente que tem entendido a urgência da gente se cuidar. E tem muitas coisas que podem levar a gente pra esse lugar. Uma leitura, um filme, uma série, um encontro (online) com uma amiga especial ou alguém da família, uma taça de vinho. Ou até nada disso, um silêncio. Um bom silêncio pode ser revigorante demais. Descansa.

Margareth Menezes - Divulgação - Divulgação
Cena de A Casa da Vó, com Margareth Menezes
Imagem: Divulgação

Neste sentido, quero compartilhar com vocês, leitoras da coluna por aqui, uma dica. Uma dica de respiro. Ou pelo menos foi um respiro pra mim, porque me levou para lugares muito bonitos no que diz respeito à compreensão de algo que me é muito caro, a construção de imaginários sobre a estética negra.

Quem me acompanha, já tá ligada que tudo que diz respeito à roupa é tipo um figurino - e quem me acompanha mesmo já sabe também que aprendi isso com minha mãe. Toda roupa diz alguma coisa, tem uma ideia, uma narrativa, um propósito.

E foi com muita alegria que pude acompanhar estes dias o belíssimo trabalho da Fernanda Garcia, figurinista da série" A Casa da Vó", recém-lançada, que marca também a estreia da WoloTV, plataforma de streaming dedicada a narrativas negras.

Estrelada pela deusa Margareth Menezes e dirigida por Licínio Januário, A Casa da Avó é um bálsamo. Um bálsamo de referências construídas com talento e beleza, a partir de um trabalho de pesquisa que respeita e também homenageia o que corpos negros comunicam a partir de suas existências, e também de suas roupas.

A série, que também tem no elenco Rincon Sapiência, Johnny Klein, Jessica Cores, Dj Pelé, Sol Menezzes, Kiara Felippe, Jacy Lima, Cadu Libonati, Diego Becker, Wilson Rabelo, Érica Ribeiro e Dum Ice, é uma ótima comédia, especialmente pra quem tem saudade de séries importantes que levaram referências negras para dentro da cultura pop no audiovisual, como "Eu, A Patroa e as Crianças", "Todo Mundo Odeia o Cris" e "Um Maluco no Pedaço".

A CAsa da vó - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Bati um papo super legal com essa figurinista que tem em sua trajetória audiovisual, trabalhos como a novela Lado a Lado, que levou para a TV, na Rede Globo, a história sobre o surgimento da primeira favela do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, em que vestiu Camila Pitanga, Milton Gonçalves e Lázaro Ramos, que a convidou inclusive para estar na equipe de Medida Provisória, seu filme a ser lançado em breve.

Quando assisti a série, posso dizer que assisti ao figurino, me encantei demais. E, de cara, quis saber da Fernanda como foi estar neste trabalho. "Quando recebi o convite do Licínio, me senti a Ruth Carter, a figurinista de vários trabalhos do Spike Lee, porque os trabalhos dela são verdadeiras investigações sobre o que a comunidade negra quer representar a partir de suas roupas. Senti que seria uma oportunidade semelhante."

Ela me contou que estar em uma série que retrata a realidade de uma casa liderada por uma mulher negra, como tantas que vemos por aí, foi importantíssimo. "É a casa de uma avó, uma grande matriarca, que de repente tem os netos todos morando com ela. Então, ela vai entendendo as personalidades distintas de cada um e, a partir de suas convicções, fazendo o possível para empoderá-los, para que estejam plenos em suas potências. É bem bonito."

Uma das coisas que estamos bastante acostumadas a ver nos produtos audiovisuais com papéis representados por negras e negros é a imagem estereotipada. Que, embora existe, não é única e não representa nossa pluralidade estética.

Na série, Fernanda cuida disso muito bem. "Tem a capulana, mas não tem só a capulana, sabe?".

Além disso, os personagens são diversos, temos essa avó, que ensina fit pagode, tem o nerd militante, tem a afropati, e várias outras representações. Ela me contou como construiu cada um deles. "Vestir a Margareth foi uma realização, primeiro por admirá-la demais, por achá-la linda, espetacular, e também por ela ser a alma da série. Tudo acontece em torno dela. Não queria deixá-la com aquela cara de avó de bata, sabe? Por mais que esta seja uma referência de avó, eu queria algo contemporâneo e forte. Então, criei umas coisas inéditas, como modelagens africanas e afrobrasileiras em lycra, por exemplo. Ela adorou e eu fiquei bem feliz."

A Casa da Vó - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

O personagem de Johnny Klein é um nerd, com o discurso reconhecidamente político na ponta da língua. É ele quem carrega muitas camisetas com frases de impacto da luta antirracista. "Ficamos entre referências do Malcom X e de um Spike Lee jovem. Decidimos por algo mais Malcom X mesmo", comenta. Aí, tem a afropati, que vai se permitindo novas estéticas a partir da convivência mais próxima com a avó e os primos; e muitos outros personagens. Sempre parecendo alguém que a gente conhece. Uma delícia assistir.

Para construir tudo isso, contando com Suelen Massena e Agatha Pereira na equipe, a Fernanda contou com nomes da moda e assessórios produzidos por mãos negras hoje, como por exemplo Isaac Silva, Ojire Art, Selloko Urban Style, XeidiArte, um brinde.

Em tempos em que se discute tanto a representação negra no audiovisual, que tal se cuidássemos para não termos representação única. Que tal se fôssemos lá na WoloTV conhecer o trabalho desta equipe majoritariamente negra - mais de 80% - e que fez um trabalho tão bonito na séria A Casa da Vó. Eu super recomendo! Certeza que vai te levar para outros lugares. Vai te emocionar ao mesmo tempo que te diverte. Necessária para tempos como os nossos.

E à Fernanda Garcia, que vocês podem conhecer e acompanhar um pouco mais aqui em sua conta no Instagram, um agradecimento enorme pela entrevista e pelo trabalho. Que seja infinito o seu desejo por desvendar a pluralidade negra e traduzir tão bem no cinema, na TV, nos clipes musicais, nos streamings por aí. A gente ama. E agradece!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL