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Ana Paula Xongani

Cabelo é fundamento. Mas de quais cabelos estamos falando?

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

26/11/2020 04h00

O cabelo é importante. É fundamental e, principalmente para pessoas negras, é fundamento. Em razão da sociedade em que a gente vive, é, sim, um lugar de muitos atravessamentos, que impactam diretamente em nossa autoestima e na relação que a gente constrói com a gente mesma e com o mundo ao nosso redor.

Sem dúvida, meu cabelo na infância foi um lugar de conexão e muito carinho familiar. Eu tive uma autoestima totalmente fortalecida e o vetor pra isso era, sem dúvida alguma, a relação que eu tinha com o meu cabelo. Era o cuidado, o enfeite, as diversas possibilidades de penteados que minha mãe fazia pra me proteger do racismo e pra que eu me sentisse bela, em todos os espaços em que eu queria estar.

Sempre tive cabelos muito bem cuidados, enfeitados, grandes, blacks, trancinhas na altura do ombro, franja. Sempre me senti muito bem com meu cabelo natural, o que ainda é sempre uma trajetória longa para mulheres negras. Gosto de dizer que nunca alisei o cabelo. Não porque eu não queria, mas porque eu realmente não precisava. Todos os meus desejos capilares foram realizados.

Xongani 1 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Ana Paula Xongani
Imagem: Arquivo Pessoal
Xongani 2 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Hoje, com uma filha, percebo o quanto de amor, resistência, ensinamento e cuidado existe quando você coloca uma criança no seu colo pra cuidar da cabeça, pra cuidar do cabelo dela. E é tudo sobre referência. Eu conheci os dreads com a Lauryn Hill, apresentada pelo Márcio Costta, cantor e amigo de longa data. Minha filha conheceu os dreads comigo e, com seis anos, endredou o cabelo, em uma viagem que fizemos a Moçambique. E, se eu sou a grande referência dela, eu quero ser uma referência diversa. Porque eu quero que ela possa experimentar diversas possibilidades.

Assim como ela, endredei meu cabelo em Moçambique, depois de ver as várias possibilidades capilares por lá. Isso tem 13 anos. Era criança, senhorinha, executiva, todas mulheres maravilhosas! Voltei de lá, do primeiro país africano que eu conheci, com esse cabelo. Foi muito simbólico. Senti como se estivesse carregando um pedaço de África em mim, como se tivesse trazido de lá, daquele território, uma cultura ancestral.

E a impressão que tenho é que minha vida profissional começou naquele momento, quando endredei os cabelos. Primeiro, dentro do ambiente corporativo, depois no Ateliê Xongani, que sempre foi a minha ilha da maravilha, o lugar onde sempre me sinto protegida, com pessoas negras trabalhando, pessoas negras indo lá consumir. Eu virei a Ana Paula Xongani, empresária, do cabelo endredado, dentro do ateliê, um empreendimento construído por mim e por minha mãe.

Depois, comecei a criação de conteúdo já com o cabelo endredado e ele foi minha grande proteção, porque às vezes era ele que sustentava meu discurso da diversidade. "Não tem mulher preta só de black! Precisamos ter dreads, tranças, cabelos curtíssimos! Precisamos ter diversos tipos de cabelo crespo", era o que eu vivia dizendo. Encontrei esse acolhimento na marca em que me tornei a primeira embaixadora de dreads do país.

O dread era um lugar de fortaleza, de gerar diálogo, discussão, reflexão. E eu realizei muitos sonhos profissionais com ele. Fiz TV, TED, viagens internacionais, documentário para a Obama Foundation, visitei grandes teatros, conheci muita gente que é referência pra mim, me tornei referência. Tudo com meu cabelo endredado. Eu falava: "Sério que eu tô alcançando e conquistando estes espaços sendo uma mulher preta, endredada, de corpo volumoso?". O racismo coloca sempre um teto pra gente e eu já me sentia e sinto na laje, lá em cima! Muito mais do que sonhei.

Mas, depois de tantos anos, veio esse desejo de cortar o cabelo, raspar mesmo. E obviamente refleti sobre tudo isso que conto. Mas escolhi cortar mesmo assim, pelo simples desejo de me desafiar, desafiar meus limites e construir, pra mim e pra todo mundo que me acompanha, outras possibilidades.

Claro que é sempre pra mim primeiro. Eu quero me conhecer mais. Eu quero me conhecer várias vezes. Eu tenho certeza de que isso vai impactar outras pessoas, mas é primeiro pra mim. Em segundo lugar, como já falei aqui, pra minha filha. Ela nasceu e cresceu com essa mãe aqui, de cabelo comprido, que performa feminilidade, e ela precisa conhecer novas belezas. A minha mãe fez isso por mim também. Ela tirou o cabelo alisado pra mostrar possibilidades do cabelo crespo.

Agora é minha vez.

E você? Já parou pra pensar quem são as mulheres que você acha belas? Como são os cabelos delas? Será que você segue algum padrão? Está pronta para, além dos discursos bacanas, ver beleza de verdade na diversidade? Ver beleza de verdade na mulher negra?