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O que a moda diz sobre envelhecer?

Ana Paula e a mãe, Cristina Mendonça - Rodrigo Fuzar/Divulgação
Ana Paula e a mãe, Cristina Mendonça Imagem: Rodrigo Fuzar/Divulgação
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

24/09/2020 04h00Atualizada em 24/09/2020 10h03

Na minha última coluna, mencionei minha mãe, a Cristina Mendonça, contando um episódio em que ela quis me proteger através da moda, como fez durante toda a minha vida. Mesmo antes de termos o Ateliê Xongani, que hoje entendo sempre ter existido, ela já fazia as minhas roupas e acessórios. Sempre me vestiu para enfrentar o mundo fora de casa, com segurança e beleza. Ela sempre pensou na beleza.

Para usar um clichê, "quem a conhece sabe": dona de um estilo único, colorido, chique e despojado, tudo ao mesmo tempo. Minha mãe é uma "sexygenária", como ela gosta de falar. Esses dias, observando-a caminhar pra lá e pra cá no ateliê, me lembrei da estética Afropunk, o festival. Conseguem perceber o quão interessante é isso? A minha mãe, uma mulher preta, de corpo volumoso, 60+, me lembrando o Afropunk, um movimento reconhecidamente "jovem", de estética afrofuturista?

Será que isso deveria ser tão "notável" assim? Ou será que a gente devia colocar mais em prática uma mensagem que faz bastante parte da mensagem do próprio Afropunk? NO AGEISM que, na tradução livre significa "sem preconceito de idade", está lá em todos os cartazes do evento, muito instagramável, fotografado por todes. Está também em adesivos, camisetas. Geral que tem o Afropunk como referência estética, negros ou brancos, já observou ou publicou isso alguma vez na vida.

Mas, será que estamos construindo esse lugar nas nossas próprias referências estéticas, naquilo que vai construir a forma que nosso corpo vai se vestir e, portanto, ocupar o mundo, quando tirvemos idades mais avançadas? E o que será que estamos fazendo com os nossos mais velhos agora?

Nós, pessoas que não apenas refletem a moda, mas que a fazem, estamos usando nossos saberes e tecnologias de moda para deixá-los passearem pelo mundo, se expressando como são e também de forma confortável, mesmo quando o corpo passa a responder aos estímulos de outra forma?

Tenho a impressão de que a gente só faz parte da moda num período muito curto da vida e sendo uma pessoa de corporalidade muito específica. Sobre outros aspectos já falei aqui, mas de uma conversa com minha mãe resolvi abordar agora esta questão que trago, da idade.

Ela me contou, por exemplo, que primeiro de tudo nem achou que chegaria aos 63, mas se chegasse, se imaginava aquela "vellinha clássica", com cores neutras, naqueles tons rosês, champagne, roupas retas, sapatinhos baixos e sem graça. "Aí, chegou os 50 e reparei que eu não tinha nada a ver com o que eu mesma tinha de construção imagética do envelhecimento. Não sou fechada com a moda padrão para as pessoas da minha idade. Tipo, 'um lilás cai bem?'. Não faz diferença pra mim. Se pah nem uso. Eu vou usar outra cor, vou misturar cores em uma roupa que conversa com meu corpo de agora, que não é mais um corpo de 23 anos. Aí, coloco uns acessórios bem contemporâneos, um super tênis. Um vestido soltinho, uma meia super transada, coisas assim".

Cresci vendo minha mãe usar meia arrastão e, nesse dia, ela me contou o que esse ítem sempre significou pra ela. "Descobri a meia arrastão lá nos meus 18, 20 anos anos. Na minha época, ela não tinha variedade de cores, então eu tingia. Hoje, nem sei se a fibra tinge, acho que não, uma pena. Sempre achei bonita, elegante. As mulheres que usavam meia arrastão na minha época eram meio transgressoras, não era padrão, sabe? Eu achava deslumbrante."

É a marca registrada dela, junto com a coleção de Converse, sempre!

Mas e o mercado de moda? Como será que uma mulher 60+ se sente quando entra numa loja? Eu, mulher preta, sempre me pergunto sobre isso quando diz respeito aos corpos negros. Mas, como ser um corpo mais velho numa grande loja de roupa, nas lojas de departamentos? Minha mãe disse que é MUITO difícil, que ela tem que andar muito para encontrar peças para montar seu figurino. Sim, ela fala fi-gu-ri-no! E eu amo!

"As roupas que vejo nas lojas para as mulheres mais velhas são cruéis. Não tem uma pegada, um estilo. Descaracteriza seu corpo, geralmente não tem modelagem que favoreça seus contornos, a beleza do seu corpo, que é, sim, bonito. Não jovem, mas lindo, sim! Nessas lojas, quando não há uma sessão para idosas, por vezes nem atendida sou."

Minha mãe é uma referência de moda pra mim, já escrevi isso por aqui também. E eu quero sim que ela - e eu também - sejamos uma referência de moda, beleza e estética para outras jovens, para minha filha. Mas, como será que, num aspecto mais amplo, estamos cuidando do nosso próprio envelhecimento neste sentido?

Tá nas mãos de todo mundo que pensa e faz moda construir este lugar para a nossa geração de pessoas mais velhas. É a gente que tem que construir a possibilidade de um envelhecimento que siga refletindo o que cada pessoa é, feliz com seus corpos, suas roupas e suas infinitas possibilidades.

Vamos pensar sobre isso?

E, mãe! Sério! Obrigada por tanto! Você é minha sexygenária preferida! Que sorte minha, da Ayo e de todo mundo que tem a oportunidade de acompanhar o entorno que você embeleza! E pra quem quiser acompanhá-la, é só ir lá no Instagram, que ela também anda embelezando as redes!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.