PUBLICIDADE

Topo

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido
Seu cadastro foi concluído!
reinaldo-azevedo

Reinaldo Azevedo

mauricio-stycer

Mauricio Stycer

josias-de-souza

Josias de Souza

jamil-chade

Jamil Chade

Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Será que o Jorjão ajuda? Casal tenta recuperar o tesão após 10 anos juntos

nd3000/Getty Images/iStockphoto
Imagem: nd3000/Getty Images/iStockphoto
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

03/05/2022 03h00

Luísa e André são um casal com pouco mais de trinta anos e têm um filho de 10 anos. A vida deles é dessas que a gente custa a admitir: sem originalidade, um tanto burocrática, coisa de gente adulta e cansada. Luísa trabalha meio período na loja de roupa da cunhada e no restante do tempo cuida da casa e do filho. André é contador, anda estressado com o acúmulo de trabalho com o imposto de renda, mas no geral é um homem pacato.

O sexo foi se diluindo com o tempo de relacionamento de uma década, com o filho que chegou cedo, o erotismo silenciado pelo receio de que ele ouvisse o gemido dos pais. Soltar a voz mesmo só durante o louvor no culto, que a família toda, desde sempre, participa regularmente.

Embora saibamos que muitas religiões são explícitas em regramento sexual - no estilo mais tradicional possível - muitas "igrejas" têm afrouxado a regulação, desde que o sexo aconteça entre casais heterossexuais e casados. Vale sex toys, sedução, quem sabe sexo anal.

Então achei meio estranho quando Luisa disse que eles não podiam frequentar motel por causa da religião. Confesso que faço um esforço como terapeuta para fazer a 'egípcia', mas me corrijo logo. Cada pessoa com suas crenças, além disso sempre há uma interpretação pessoal daquilo que já é também interpretação pessoal dos livros sagrados, não é mesmo?

Luísa me procurou porque o sexo está uma chatice, o desejo dela escondido em algum lugar, a frequência cada vez menor. Sexo acontece uma ou duas vezes por ano. André passa o tempo todo reclamando que ela está sempre cansada, muito embora, cá para nós, ele não faça esforço nenhum para tomar iniciativa quando ela está lá, na cama, bem acordada, esperando por ele.

Como vão completar fazer dez anos de casamento, ela quer inovar e surpreendê-lo. Já que motel não pode, sugeri uma estadia em um hotel. Fez a reserva, comprou uma camisola nova, um gel para massagem corporal, uma vela com leve odor de alecrim, e um lubrificante que esquenta. Ensinei algumas técnicas para massagear o pênis do André, e ela, que é cheia de pudor, curtiu de montão segurar o Jorjão, o pênis de borracha que eu tenho com finalidade educativa.

Não me condenem, foi ela, não fui eu: antes de abrir minha gavetinha, sempre ofereço 4 modelos: de crochê, e os outros 3 realísticos: Jorginho, Jorge e Jorjão. Gostei de ver a mulher envergonhada, mas gulosa, pedindo para conhecer o Jorjão.

Dias antes da data comemorativa, ela avisou André que tinha uma surpresa para ele, mas que só contava no dia. Ele até se mostrou um tantinho entusiasmado - 'quem sabe não era um iPhone 13?' - mas quando ela contou que iam para um hotel, ter um momento de intimidade, ele fechou a cara, disse que não estava bem, mas foi mesmo assim, afinal ela já tinha pagado.

Nessas horas, desculpem os terapeutas tradicionais, mas eu não faço a mínima questão de esconder indignação - mania de homem de não querer gastar dinheiro porque "tem cama em casa".

Chegando lá, ela deu um trato no corpo dele, massageando cada cantinho, superando todas as suas vergonhas e praticando a arte da sua sedução. Ele reclamou que dava cócegas, que ela parasse com todo aquele estímulo, não teve ereção, não a beijou e ligou a televisão. Luísa, magoada, disse que ele entendesse que foi muito difícil tomar a iniciativa de fazer tudo aquilo, no que ele meio que ignorou.

Chamei André para conversar, que veio ressabiado, defendido, dizendo que não acreditava na terapia porque ela não muda - André, ela tomou uma iniciativa enorme - como assim não há movimento da parte dela? Daí ele desmereceu, listando tantas outras coisas que ela não faz, blá, blá, blá.

Não tive dúvida. "André, aqui nessa gavetinha eu tenho alguns modelos de vulvas e pênis para a gente conversar sobre a resposta sexual. Você pode escolher começarmos pela vulva ou pelo pênis". - Pênis, ele respondeu. - De crochê ou realístico? - Realístico. - Jorginho, Jorge ou Jorjão? E não deu outra...

É fácil usar a interdição que vem de fora, colocar a responsabilidade na outra pessoa e se esconder, difícil mesmo é admitir o desejo pelo Jorjão e tudo o que ele representa.

A potência sexual e pessoal é constantemente testada pela vida. Assim como Luísa, André carece de tesão, excitação, saudade de desejar mais do que ele tem. Agora, se a escolha pelo Jorjão é uma identificação da potência faltante em si mesmo, ou reflexo de um desejo encarcerado pela religião, ainda vamos descobrir.