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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como lidar com falta de desejo sexual de marido sem achar que é culpa sua?

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Imagem: Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

11/09/2021 04h00

Paula tem 35 anos e se relaciona com um homem de 40 anos que, segundo ela, foi criado em um entorno sociocultural bastante tradicional e crenças sobre a virilidade masculina, a lógica do pênis-força-poder. O problema é que o marido, alega não ter desejo sexual por baixa de testosterona e pouca produção de espermatozoides (que provavelmente é resultado da baixa hormonal). Para vocês terem uma ideia, fizeram sexo 1 vez em 2020, não sendo a pandemia a justificativa mais forte nesse caso. Segundo ele, é falta de vontade mesmo.

Além disso, ela me relata que o marido saiu de uma relação de 15 anos, com uma mulher que reprovava seus pelos corporais, sua barriga e outros aspectos físicos. Paula, que gosta de sexo, no começo do namoro se empenhou em ajudá-lo a recuperar a confiança, demonstrando a atração sexual que tem por ele, e o prazer na relação. Ele a beija e a abraça com expressão de amor intenso, mas não demonstra uma gota de desejo e "trava" na hora H.

O interessante, nesse caso, é que Paula ganhou uns quilos a mais durante a pandemia, o que abalou sua autoestima, pois ela ligou uma coisa à outra, por mais que ele faça elogios ao corpo dela. Ou seja, ao não demonstrar atração sexual por ela, capaz de mover-lhe o desejo para fazer sexo, ocorre uma transferência do problema da baixa autoestima corporal: agora, os dois olham para os próprios corpos com tristeza, deserotizando-os, como se dividissem a responsabilidade pela falta de sexo do casal.

Problemas sexuais têm essa força, de provocar outras queixas sexuais. Não é incomum que a relação sexual seja contaminada pelos fantasmas de suas motivações não bem compreendidas e acabem promovendo uma cascata de dificuldades. Um homem que perde a ereção durante a relação sexual, por exemplo, pode passar ao descontrole ejaculatório, gozando rápido demais a fim de evitar a perda de ereção, o que pode levar ao completo desinteresse sexual da parceira, que passa a evitar o sexo.

Não sabemos o quanto o marido de Paula é consciente dessa dinâmica, mas o fato de não buscar ajuda, mostra que está cristalizado no papel do homem "menos homem", que se coloca em uma postura passiva e conformada diante da vida. Para esse tipo de perfil, nada mais incômodo que uma mulher desejante, que o questione e demonstre insatisfação.

Paula o incentiva a procurar um profissional, mas ele resiste. Agora ela se vê naquela encruzilhada da vida, pois ama o marido, mas percebeu que para viver com ele, teria que abrir mão da vivência sexual em casal, algo que "resolveria" a angústia dele, mas aumentaria a dela.

Paula o ama muito e não sabe o que fazer. Está completamente perdida na esperança de ter algum final feliz nessa história, pois questiona se o parceiro é assexual ou se está se privando de mobilizar a energia sexual porque o modelo de masculinidade ideal que tem internalizado o impede de se desenvolver. Sim, porque uma coisa é não ter atração sexual pela parceira, caso dos assexuais, outra coisa é ter desejo sexual hipoativo. Para a segunda opção há reposição de testosterona, ou mesmo maneiras de acionar o desejo responsivo, aquele que é motivado por cenários eróticos, fantasias ou toques corporais. É uma questão de disposição para querer fazer acontecer.

Aliás, a meu ver, está aí a chave para a sua decisão. Ela me diz que eles conversam frequentemente sobre isso, pois embora ela ainda esteja acima do peso, decidiu retomar a sua vida sexual e ele "não pôde, não quis ou não conseguiu me acompanhar." O "não pôde" indicaria uma impossibilidade definitiva para o problema, o que, nesse caso, não me parece factível. O diagnóstico é "difuso" e há caminhos possíveis para tratamento.

O "não conseguiu" revela que os recursos emocionais e físicos que ele tem disponíveis no momento estão insuficientes, o que não condena ninguém ao fracasso no futuro. Já o "não quer" demonstraria que ele não acredita na sua potencialidade, ou que é acomodado, ou que vê a vida com uma lente meio cinza, quem sabe até um pouco depressiva. Talvez esteja bom para ele, mas e para ela?

Negar buscar ajuda para entender melhor as motivações da falta de desejo dele diz muito sobre uma forte rigidez e também joga para a parceira a decisão sobre o que fazer. É Paula que está angustiada e sofrendo, que não sabe qual caminho tomar e que me pede ajuda. Fica parecendo que o problema agora não é do casal, mas só dela, a mesma transferência da queixa inicial, o que certamente quer dizer muito sobre como este homem lida com conflitos, dilemas e o desejo da parceira.

Assista ao episódio #60 do podcast Sexoterapia - Descompasso sexual: quando um casal perde o ritmo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL