PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Antes só do que mal acompanhada' é antídoto para relacionamento tóxico

Getty Images
Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

07/09/2021 04h00

Vários estudos concordam que quanto mais duradoura e satisfatória é uma relação afetiva ou quanto mais rápido alguém se desliga de um relacionamento tóxico, melhor. A instabilidade amorosa, provocada por graves conflitos de comunicação, frieza e distanciamento emocional, agressividade, ciúme patológico, dependência emocional, estão relacionados a sintomas de depressão, ansiedade, abuso na ingestão de álcool e prejuízos para a saúde em geral.

Sim, embora muitas vovós possam não ter sido felizes nas suas relações amorosas, já que faltava apoio familiar e social para terem coragem de se separarem, elas já tinham razão quando diziam "antes só do que mal acompanhada"

Relacionamentos tóxicos são caracterizados quando há prevalência de emoções e sentimentos sentidos como "negativos" no vínculo entre as duas pessoas, com constância e intensidade. Ter raiva, ciúmes e até inveja das parcerias é comum, o que não dá é viver uma montanha-russa de adrenalina, ansiedade e violência, dia sim, no outro também.

Mas não é só esse tipo de energia que está presente em relacionamentos difíceis; também a distância, a ausência de intimidade, a falta de diálogo e de expressão do amor pode tornar alguém constantemente angustiado ou implorando afeto, aumentando a sua insegurança.

Uma relação saudável é construída no desejo de confiar, na permissão do outro ser quem é e no projeto de ambas as pessoas acreditarem no relacionamento e que ele pode ser sempre melhor. Nunca é um mar de rosas, então o importante é avaliar a intenção dos envolvidos.

Ou seja, ter consciência sobre as características da personalidade que provocam instabilidade na relação com as outras pessoas é fundamental para qualquer mudança significativa a evitar desgastes.

Mente e corpo estão conectados, não são "entidades" separadas. Cada vez que você tem uma emoção mais intensa, seu corpo reagirá a isso. Normalmente, quando estamos ansiosas, tristes, irritadas ou angustiadas, perdemos o apetite ou nos entupimos de comida; bebemos e fumamos mais; descuidamos da saúde. Há mais dificuldade de ser produtiva, ocupamos o dia com pensamentos negativos ou dúvidas sobre os porquês da atitude da parceria ou do motivo de uma briga; duvidamos da nossa percepção e do quanto somos importantes na vida do outro.

Quem já viveu um relacionamento complicado sabe as loucuras que somos capazes de fazer, os perigos que nos expomos e o abandono físico e emocional que nos acomete.

Viver sozinha não é fácil, principalmente quando gostamos de uma vida "acompanhada". É duro não ter com que dormir de conchinha quando está frio, fazer sexo, compartilhar como foi o dia, trocar ideias, ter companhia para o teatro, a festa de casamento, dividir responsabilidades em casa e na criação dos filhos. Mas não é o fim do mundo; há vantagens em desfrutar da autonomia e da solitude.

O problema é que às vezes o que agrava a percepção sobre a necessidade de ter alguém é justamente a ideia de não ter alguém, recheada de crenças negativas sobre "estar disponível". Muitas pessoas não conseguem vencer esses medos, as inseguranças, porque são dependentes da relação, mesmo que ela seja um verdadeiro caos emocional. Por isso mantem-se "mal acompanhadas", sendo, muito provavelmente também, uma péssima companhia para o outro. É a lei da ação e da reação.

Ficar só nos ajuda a desenvolver a capacidade criativa, a reconhecer a nossa força e coragem, e valorizar o fato de darmos conta de nós mesma, tomando as rédeas da própria vida. Muito melhor do que precisar viver com alguém é escolher viver com alguém. Alguém que te impulsione a ser uma pessoa melhor e vice-versa.


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL